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Tempo de Leitura: 2 minutos

Exatamente como seu velho pai

Exatamente como seu velho pai

Acordou preguiçosamente em mais um domingo sem sol e sem sentido   Calçou os chinelos já gastos e com muita quilometragem, relou a remela no canto do olho esquerdo e soltou um bocejo de quase arrependimento por ter acordado tão cedo no único dia de folga. Avistou no minúsculo espelho do banheiro que a cara

Tempo de Leitura: 2 minutos

Acordou preguiçosamente em mais um domingo sem sol e sem sentido

 

Calçou os chinelos já gastos e com muita quilometragem, relou a remela no canto do olho esquerdo e soltou um bocejo de quase arrependimento por ter acordado tão cedo no único dia de folga.

Avistou no minúsculo espelho do banheiro que a cara amassada e o cabelo desgrenhado caguetavam o sono mal dormido.

Sono mal dormido de toda uma vida de preocupações.

Assim como também pelos explosivos colocados nos balões que soltam toda manhã de domingo no subúrbio.

Depois do tour matinal pelo também minúsculo lavabo, se dirige à porta de entrada do igualmente minúsculo apartamento de 36 metros quadrados em que reside há 16 anos e lá encontra com o único luxo que o ligava a outrora inalcançável classe média:

A assinatura dominical do jornal de maior circulação da cidade.

Só aos domingos se dava ao luxo de receber as noticias em casa e uma enorme parte de propagandas.

O recebia em sua porta exatamente como o dono da pequena empresa em que trabalhava.

Seis dias por semana por nove horas diárias.

A diferença é que o patrão recebia todo dia.

 

Lia cada parte com afinco.

Nada sobrava, nem os classificados.

Queria usufruir de todos os centavos que pagava para ter o jornal em sua porta todos os domingos.

A parte de esportes era a primeira e acompanhava o café ralo em que compensava com doses cavalares de açúcar.

Até o caderno infantil era devorado aos poucos e sem nenhuma pressa.

Esse era seu começo de domingo.

Exatamente como havia aprendido com seu velho pai.

 

Já sentado em um banco na praça principal,

Não deixava de notar o número alto de notícias sobre homicídios, assaltos e roubos.

Notícias que ele tratava como fruto do desenvolvimento como havia lido em uma crônica do principal colunista do diário.

Em seguida abria o caderno de política, este sempre recheado de denúncias contra o governo que em outros tempos era de oposição, mas assim que assumiu a situação passou a agir exatamente igual ao antigo governo.

Apesar de não entender nada sobre impeachment, déficit fiscal ou mesmo reforma política na roda de bate papo do botequim toda essa leitura o ajudava a parecer culto.

Muito distante da mediocridade e diferente dos demais que só queriam saber de futebol.

E quando questionado por qualquer bebum do mesmo botequim frequentado há 30 anos, como que ele afirmava aquilo tudo ser puramente a verdade, ele respondia do alto de sua soberba:

Se estava no jornal só podia ser verdade!

Exatamente como havia aprendido com seu velho pai.

 


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Fabio Pires
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