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Tempo de Leitura: 3 minutos

O dia que quase morri

O dia que quase morri

Naquela manhã pouca coisa me faria Não agir mecanicamente no caminho ao trabalho. Mais um chuvoso dia do mês de agosto que ditava a monocromia de uma verdadeira e autêntica segunda-feira. Abrir olhos, levantar preguiçosamente, procurar os chinelos, lavar o rosto e finalmente tomar uma direção: chuveiro. Difícil levantar quando todos ainda dormem, porém eu

Tempo de Leitura: 3 minutos

Naquela manhã pouca coisa me faria

Não agir mecanicamente no caminho ao trabalho.

Mais um chuvoso dia do mês de agosto que ditava a monocromia de uma verdadeira e autêntica segunda-feira.

Abrir olhos, levantar preguiçosamente, procurar os chinelos, lavar o rosto e finalmente tomar uma direção: chuveiro.

Difícil levantar quando todos ainda dormem, porém eu tinha que ir.

O dia cheio já me dizia que deveria ter me apressado.

Exatos trinta minutos depois, devidamente arrumado, perfumado, mas ainda sonolento coloquei meus pés na rua em direção ao ponto de ônibus.

Assim que alcancei a rua principal dei de cara com um colega de colégio que não via há pelo menos quinze anos.

Seguimos para o ponto de ônibus papeando alegremente sobre o que fazíamos, como estávamos, quantos filhos, se estávamos formados e estes assuntos que falamos sempre que encontramos um amigo de longa data.

Neste curto caminho olhando em frente avistei também uma antiga namoradinha de adolescência que até agora o tempo esconde seu nome da minha memória.

Um breve comprimento com a cabeça e seguimos caminho.

Mais um dedo de prosa e de curiosidade mútua, quando observei um antigo vizinho caloteiro dos tempos que eu ainda morava com minha mãe.

Este, gentilmente, me acenou deu um breve “oi” e voltou-se para a porta do hospital por onde passávamos parecendo preocupado com alguém que devia estar ali.

Fiquei na dúvida se ele ainda me devia alguma grana, ignorei minha falta de memória e voltei ao bate-papo.

Cheguei ao ponto de ônibus.

E estava certo de que o meu transporte demoraria, relaxei e desejei um “bom dia” para meu velho amigo que já embarcara logo no primeiro coletivo que apareceu.

Eu já estranhara o fato de ter visto quatro pessoas que já não encontrava há muito tempo.

E logo me assustei quando olhei para dentro do ônibus seguinte e lá um antigo professor de educação física me acenava.

Ao lado dele sua filha que foi minha colega de classe…

Na van seguinte um rapaz que cursou comigo algumas aulas de inglês era o condutor do já citado veículo.

E assim foi nos seis ônibus seguintes.

O ponta-esquerda do meu time de infância, uma outra namoradinha que desta vez eu me lembrava do nome, o zelador do prédio onde morei por alguns anos, um chefe dos meus tempos de estafeta e um conhecido viciado em vinhos em de péssima qualidade.

Finalmente chegou meu ônibus e comecei a pensar no pior.

Será que estava vendo todas estas pessoas para me despedir?

Será que seria esta a minha hora?

Aquilo não saia da minha cabeça.

Sempre escutei minha avó comentar que quando se encontrava com muitas pessoas que não se via há muito tempo era que aquela era a hora de partir.

Não sei baseado em que ela dizia isso, mas isso sempre ficou em minha mente.

Achei um lugar vago na apertada lotação que fazia jus ao nome e assim que sentei eu avistei o que mais temia!

O Sr. Frazão! O mais conhecido agente funerário do bairro!

E a lenda dizia que era o responsável por boa parte dos enterros do subúrbio carioca desde 1967 quando herdou os negócios do pai.

Sujeito debochado, até mesmo engraçado, típico de quem tratava a morte como amiga e dela vinha seus proventos.

Não dava esmolas, mas sim oferecia cachaça e cigarros.

E que adorava escutar uma tosse mais forte e profunda típica de pneumonia ou qualquer doença respiratória.

O que logo o fazia oferecer seu cartão de apresentação caso o “tossidor” precisasse dos seus serviços.

Daí em diante, morbidamente, pensei em como seria meu funeral.

Quem iria, quem não iria, se teria mãos suficientes para carregar o meu caixão e nestas coisas que vez por outra alguns de nós pode vir a pensar.

A morte estava tão perto que quase podia ver a foice portátil que o Sr. Frazão devia carregar naquela maleta de couro envelhecido e sem alças.

Vendo minha feição ainda um tanto assustada e com a segurança típica de quem já viu e continua assistindo ao pior, ele se virou para mim e perguntou se eu não era filho do Martin.

Com minha afirmativa num leve e calculado balançar de cabeça, logo estava ele a explicar como era boa a época em que brincava com meu pai pelas ruas do bairro.

Não antes de se despedir e se preparar para descer, sacou o tão famoso cartão de apresentação.

Me entregou solenemente e pediu que meu pai ligasse para que colocassem o assunto em dia.

Segurei o cartão, ele se despediu e quando olhei dentre seus contatos e nome, estava escrito:

“Todo dia morremos um pouco e aos poucos”.

Acalmei, respirei fundo e segui meu caminho.


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