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Tempo de Leitura: 3 minutos

Crônica do copo cheio e vazio

Crônica do copo cheio e vazio

Crônica em um dia de percepção da própria realidade. Ou da sua, quem sabe? Chegou ao ponto de ônibus debaixo de uma garoa fina bem diferente daquela chuvarada que inundou a cidade uma semana antes. Essa era uma chuvinha que só serve pra irritar depois de um dia inteiro de trabalho. Pouca água para abrir

Tempo de Leitura: 3 minutos

Crônica em um dia de percepção da própria realidade.

Ou da sua, quem sabe?

Chegou ao ponto de ônibus debaixo de uma garoa fina bem diferente daquela chuvarada que inundou a cidade uma semana antes.

Essa era uma chuvinha que só serve pra irritar depois de um dia inteiro de trabalho.

Pouca água para abrir o guarda-chuva e muita água para deixá-lo na mochila.

Isso sem falar que por estas bandas o trânsito para ao menor movimento das nuvens.

E sabemos que de fato não precisa de motivo algum para o trânsito empacar.

“Grandes merdas morar na cidade…” Resmungou para não ser ouvido.

Em dias assim sempre se imaginava morando na roça.

E instantes para estes refúgios de imaginação ele tinha de sobra já que esperaria ainda muito tempo pelo coletivo.

Sabidamente trocaria o barulho dos carros pelo cricrilar dos grilos.

Cansado estava do dia de trabalho.

Exausto estava de ser apenas mais um número na sua empresa.

Fatigado estava da certeza de que só num ato de loucura poderia mudar algo na sua rotina.

E havia inclusive definido loucura como ato não compreendido e invejado por aqueles que não tinham coragem em fazê-lo.

Ou seja, ele.

Nesse dia se auto proclamou filósofo de ponto de ônibus.

Se até astrólogo podia por que não ele?

Imaginou como seria se ganhasse na loteria.

Certamente ajudaria aqueles que se mantiveram próximos durante a míngua e em seguida sumiria do mapa.

Sairia por aí para descobrir o mundo, conhecer pessoas novas e poderia enfim comer sem a preocupação do dinheiro durar o mês inteiro.

Iria provar tudo.

Tudo que seus quarenta anos de salário mínimo não permitira e decerto não precisaria mais perder este tempo todo no trânsito.

Ou esperando pela condução ou apenas esperando.

Queria aproveitar o resto de vida que ainda tinha.

Finalmente chegou o lotação uns 45 minutos depois.

Conseguiu ir sentado por já se tratar de nove da noite e poucos ainda voltavam pra casa.

Escolheu o assento da janela e passou a observar os carros desfocados pela chuva enquanto procurava entender como que ele que trabalhava tanto não tinha dinheiro suficiente para comprar um.

Nenhum velhinho sequer.

Isso sem falar em toda insanidade de gastos que são impostos ao adquirir um.

Tentou divagar sobre como seria não ter que pagar nada ao governo.

Deu uma risada de canto de boca, balançou a cabeça abandonando logo este devaneio e voltou seu olhar para janela.

Com os olhos cerrados procurou desanimadamente por pensamentos bons.

Se esforçou bastante, entretanto estava tão esgotado que decide finalmente fechar completamente os olhos para tentar acalmar seus pensamentos e esfriar a cabeça.

Se agarra a sua mochila surrada e assim que abaixa as pálpebras um já veterano vendedor de doces entra no ônibus:

“Desculpem incomodar o silêncio da sua viagem…”.

Sem mexer os lábios responde a ele não se preocupar.

Isso porque na sua cabeça estava um fuzuê que ele não conseguia concatenar muitos raciocínios de maneira lógica.

E que tipo de justiça nos rege em que faz este senhor a esta hora ainda trabalhar?

Entre um solavanco e outro proporcionado pelo estado precário do asfalto se imaginava longe dali.

E se recordou da brisa do mar que sempre o acalmava e o fazia voltar à infância.

Ao passo que se percebeu procurando por pequenas compensações quando estava se sentindo sozinho como naquele momento.

Ora um vinho barato em promoção no mercado, a cervejada com colegas de trabalho ou a vitória do seu time no domingo.

E agora não sabia lidar com as incertezas cada vez maiores da meia idade que nem sabia existir.

Sendo que estava também cansado de ouvir sua mulher dizendo que ele era ingrato e que deveria enxergar as coisas boas que aconteciam em sua vida.

Que tudo se limitava ao copo cheio ou vazio.

Só não sabia como enxergar aquele copo.

Se cheio por que não conseguia degustar seu conteúdo?

Se vazio como nunca conseguiu enchê-lo?


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