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Marcas do que se foi

Marcas do que se foi

Sugestão auditiva para acompanhar este texto: Postcards from Italy – Beirut.   Sim, o título desse texto é tão piegas quanto pode soar.   Mas, talvez a pieguice esteja sendo responsável pela nossa sobrevivência em meio a todo esse caos. Todos nós reclamamos incessantemente de 2019, como se aquele fosse o pior ano, com as piores

Tempo de Leitura: 5 minutos
Sugestão auditiva para acompanhar este texto: Postcards from Italy – Beirut.

 

Sim, o título desse texto é tão piegas quanto pode soar.

 

Mas, talvez a pieguice esteja sendo responsável pela nossa sobrevivência em meio a todo esse caos.

Todos nós reclamamos incessantemente de 2019, como se aquele fosse o pior ano, com as piores tragédias, as mais chocantes mortes, os piores aumentos de preço, as mais dolorosas tragédias pessoais e o dólar mais alto em relação ao real.

Não sei explicar o que nos levou todos a esse sentimento comum de que o ano de 2019 fora tão grande desastre. Estávamos, de todo modo, em situação igual às dos anos anteriores. Posso teorizar sobre o Inconsciente Coletivo ter tomado forma de textão mal-escrito em uma rede social. Mas isso é só uma ideia.

Fato é que, apesar de cada situação boa ou ruim que vivemos, todo os anos até 2020 haviam sido relativamente parecidos. E é neste ponto que retomamos a ideia da pieguice do nosso título: Todos os fins de ano, em alguma casa no subúrbio do Rio de Janeiro, ou de qualquer canto do Brasil, alguém ouve essa música à exaustão, como se ela fosse um mantra, uma oração, um pedido a Deus, ao universo ou ao destino de que tudo mude.

E, como antigamente, as coisas dependiam mais de nós do que de uma Pandemia sem precedentes, pensávamos que seria muito eficaz cantar “Marcas do que se foi”, Imagine e tantas outras canções encharcadas de esperança, do que levantar do sofá e fazer alguma coisa realmente efetiva para provocar mudanças grandes na vida.

Junto do nosso instinto natural de procrastinar e ignorar nossa possibilidade de mudar os dias seguintes (o tão abstrato futuro), sempre alimentamos a ideia de que ‘antigamente era melhor”.

 

Antigamente.

Antigamente, eu ganhava mais, tinha mais amigos, eu estava em forma, estava sempre com boa disposição, tinha um relacionamento mais feliz, etc, etc, etc.

O “antigamente”, se tivesse um formato, seria um belo álbum de fotografias embalado em veludo cor-de-areia e envolto em um grande laço dourado. Do lado do álbum, um belo cartão com a frase “Eu era feliz e não sabia” e uma garrafa de champagne.

Romântico, não? Exatamente porque não existe nada mais glamouroso do que o passado idealizado. Os dias eram invariavelmente iguais. Mas o tempo nos distancia dessa percepção e dá a tudo uma capa bem otimista.

2020, por alguma estranha razão, parecia ser a promessa de um ano diferente. O fim de um ciclo, o fim de uma década que teria se iniciado de forma positiva e estava terminando em desastre, um novo “amanhã”. Algo que nos faria não ter necessidade de ficar folheando o álbum de fotos e bebericando a champagne da nostalgia.

 

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E então, começaram a falar no tal do COVID.

Dane-se o COVID. Por quê me preocupar, se são seres humanos do outro lado do mundo que estão morrendo?

São chineses. Pior! São malditos chineses comunistas.

O mundo está cheio de chineses e, por óbvio, cheio de comunistas. Talvez alguns morram para aliviar o fardo de aturarmos gente estranha.

E então, o COVID começou a fazer vítimas letais na Europa. E, curiosamente, o vírus deixou de ser engraçado. Nos compadecemos dos nossos irmãos italianos e espanhóis. Afinal de contas, não há tantos Europeus assim no mundo, como há chineses. E europeus são mais bonitos. Confesse: você pensa assim.

Não tardou, o vírus chegou ao país como uma espécie de tempestade de verão: você sabe que irá acontecer, mas não realmente entende quando acontece e ainda reclama da chuva.

E como não poderia deixar de ser, nos tornamos vítimas e algozes de um sistema desigual em todas as instâncias: o comércio teve que ser fechado de forma abrupta ( e desorganizada), um sem-número de pessoas perdeu seu emprego, as crianças pararam de ir ao colégio, e descobrimos que os abismos que nos separam são muito maiores do que pareciam.

 

Com a quarentena (que já tem bem mais do que apenas 40 dias), a fome bate à porta de muitos.

Estudantes não têm acesso à educação de qualidade, ou simplesmente nem têm acesso a coisa alguma.

O vírus, teoricamente, mata qualquer um, mas quem morre mais ainda são os mais pobres, que precisam ir para a rua trabalhar contra as determinações do governo, para levar comida para casa.

Os governos de Estados e Municípios tentam manter algum controle. O chefe do executivo federal, ignora de forma SOLENE a existência do problema.

E porque estamos no Brasil, as coisas acontecem assim: em pouco tempo, nos tornamos o epicentro da desgraça, com mais de mil mortos por dia.

Some-se a isso todos os efeitos colaterais econômicos nacionais e internacionais, e ainda a grande parcela da população que sai às ruas em manifestações contra a democracia.

Também estamos tendo um aumento absurdo nos casos de depressão, síndrome do pânico, Transtornos de ansiedade em geral e tudo o que pode acontecer com uma mente bagunçada pelo confinamento.

Ah, e é claro: não bastasse tudo isso, os hospitais estão todos lotados, os números de casos de COVID são alterados pelo governo, e inúmeros políticos estão desviando dinheiro da compra de respiradores. Ufa…

 

Bom…

Isso tudo sem falar nas manifestações contra o racismo, que parecem apenas deixar mais raivosos os “cidadãos de bem” que se acham brancos e bons demais para respeitar o próximo.

Eu falei dos avistamentos de OVNIs em todos os lugares do mundo desde o início do ano? Não? Melhor deixar para lá.

Assim, em um furacão distópico, chegamos vivos à metade do ano. Se você leu tudo isso e não está doente, não está passando necessidade, não foi agredido por um policial, não sofreu violência doméstica e têm chances de estudar saiba que você faz parte da parcela hiper privilegiada da população mundial.

Pensando assim, e analisando como todos os eventos mais estranhos resolveram ocorrer este ano, 2019 foi um ano muito bom.

Maravilhoso, eu diria.

 

Mais do que isso:

Vale dizer que éramos todos muito felizes, embora não soubéssemos. Antigamente era melhor sim, por mais que a política tenha sido sempre um campo de animosidade e desentendimento. E talvez a vida fosse mais doce quando nossas preocupações estavam ligadas aos filmes da Marvel ou às manhãs de sábado lotadas de trabalho. O mundo era menos terrível quando não tínhamos de andar todos de máscara.

É claro que estou falando de nós, privilegiados, sortudos, abençoados. Estou reclamando do alto do meu castelo.

Mas não minto: Já fui mais feliz. E você também, posso imaginar.

Volta e meia eu abro o álbum de fotografias, folheio lembranças que só existem em algum lugar do passado, penso que a vida era bela apesar de tudo… e me pergunto se ficar ouvindo músicas esperançosas demais na virada do ano não seria uma forma de atrair maldições.


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