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Entre a vida e as mortes

Entre a vida e as mortes

Há mais de uma década, Notei que minha irmã mais velha já não era a pessoa que um dia chegou a ser.    Esquizofrenia, foi o que disseram. Além de todas as doenças que ela já possuía, de repente, ela já não conseguia concatenar pensamentos, e repetia sem parar que estava sendo perseguida por entidades

Tempo de Leitura: 2 minutos

Há mais de uma década,

Notei que minha irmã mais velha já não era a pessoa que um dia chegou a ser. 

 

Esquizofrenia, foi o que disseram. Além de todas as doenças que ela já possuía, de repente, ela já não conseguia concatenar pensamentos, e repetia sem parar que estava sendo perseguida por entidades daqui, de lá. Ela mesma não sabia a própria identidade e dizia que era Nossa Senhora.

Á época, participei ativamente de tudo o que pude para sua recuperação, até descobrir que não haveria uma recuperação em seu caso.
Ela foi submetida aos remédios que não fariam mal a seu organismo já tão frágil e, com o tempo, foi deixando de existir na vida.
Dos 19 aos 29 anos, vi minha irmã ir deixando de existir, junto com suas palavras cada vez mais raras, seus olhares perdidos e uma compreensão cada vez menor do mundo.
Já não parecia haver alma que sustentasse o corpo.

Foi a primeira morte.

Aos 30 que vi um novo problema chegar da noite para o dia, literalmente: os rins dela pararam pelos muitos anos de diabetes não tratada da forma correta.

Foram meses indo e vindo de hospitais e aceitando sua possível segunda morte.
Eu a vi começar a diálise e desde então a tenho acompanhado nas 3 sessões semanais.

 

Acabei me tornando especialista nas pequenas coisas que ninguém nota ou sabe:

Carambola é extremamente venenosa para os rins.
Você não está gordo ou gorda. Talvez dois quilos a mais sejam só excesso de líquidos.
Pessoas que fazem diálise quase não podem beber água.
Há mais sódio nos alimentos do que jamais poderíamos imaginar.
Quem suporta diálises, suporta quase tudo com uma tranquilidade quase budista.
A creatinina, na mente de uma paciente renal, causa perturbações.
Todo paciente renal corre riscos, mas a maior parte aprende a lidar com isso e consegue ser mais feliz que eu, ou você (caso não seja renal).
Nunca dê frutas para um paciente renal. Você pode criar problemas sérios.

 

 

Pessoas que já viram a morte de perto sabem valorizar coisas tão bobas que, em algum momento, falam como crianças.

Poucas pessoas sabem a importância de rir; a não ser que já estejam em um problema muitas vezes insolúvel.
A vida escorre, abunda e transborda justamente daqueles que vislumbram a morte. E você não precisa perder os rins pra saber disso.
Por fim, aprendi que, infelizmente, nem à beira da morte, uma pessoa retorna ao estado normal de consciência depois de uma doença como a esquizofrenia.

 

Há um ano e quatro meses, venho aprendendo, todos os dias, coisas que não aprendi nos mil livros que li e nas tantas aulas que recebi.

A vida ensina mais que qualquer coisa.
E a linha tênue entre vida e morte, quando bem observada, faz mais revoluções em sua mente pequena e preocupada com o preço da gasolina do que você pode imaginar.
Um dia, a vida ou a morte farão cessar essa escola e então passarei a outros aprendizados.
Até lá, sigo aprendendo.

 

*O texto acima é baseado em fatos tão reais que minha irmã está aqui agora, no escuro, me olhando fixamente, sem dizer nada.


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