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Terra de idiotas: livro é luxo, pistola é essencial e a ignorância é obrigatória

Terra de idiotas: livro é luxo, pistola é essencial e a ignorância é obrigatória

“Tributar livros, isentar armas. A Argentina tem cinco prêmios Nobel, o Chile e a Colômbia dois e o Peru tem um. O Brasil tem o Bolsonaro. E vocês, querem livros pra quê? No xilindró surrealista irrespirável em que estamos presos, uma dose de cachaça terá mais utilidade”. Já virou um exaustivo ato repetitivo, quase diário,

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“Tributar livros, isentar armas.
A Argentina tem cinco prêmios Nobel, o Chile e a Colômbia dois e o Peru tem um.
O Brasil tem o Bolsonaro.
E vocês, querem livros pra quê?
No xilindró surrealista irrespirável em que estamos presos, uma dose de cachaça terá mais utilidade”.

Já virou um exaustivo ato repetitivo, quase diário, ficar assombrado com alguma medida inacreditável tomada pelo “governo” de Jair Bolsonaro. Esta semana ficamos sabendo que o projeto de reforma tributária de Paulo Guedes, ministro da Economia e orgulhosa paquita do genocida Augusto Pinochet, pretende taxar livros e outros produtos editoriais. Livros são isentos de impostos no Brasil por medidas previstas na Constituição Federal.

O livro é a metonímia do conhecimento. Não há uma só sociedade no planeta cujo desenvolvimento socioeconômico elevado não esteja de mãos dadas com a leitura. No Salão do Livro de Paris do ano passado, uma pesquisa divulgada pelos organizadores mostrou que os franceses leem em média 21 obras por ano e apenas 8% deles não têm o hábito de ler. E eles nem estão entre os cinco povos mais consumidores de livros no mundo.

Já um levantamento feito pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) detectou que 44% dos brasileiros não leem e que 30% nunca leram um livro na vida. Entre os 56% que são leitores, a média de publicações lidas é de menos de cinco por ano.

Não vou ficar divagando aqui sobre o problema do acesso aos livros e à educação escolar no Brasil.

Que tem suas origens no modelo colonial português que manteve nosso território hermeticamente fechado aos estrangeiros e a qualquer natureza de informação vinda do mundo exterior, por mais de três séculos, proibindo livros e jornais. A Coroa Portuguesa tinha consciência da vastidão de nossas terras e sabia de sua vulnerabilidade militar frente a outras potências que nos cobiçavam. A ignorância e a alienação de nossos compatriotas do passado eram estratégias para manter os domínios no além-mar. Esse cenário apenas sofreu uma ligeira mudança com a chegada da família real em 1.808.

Num resumo simplificado, o fato é que nossa sociedade profundamente empobrecida, desigual e privada de serviço básicos por inúmeros fatores históricos (como a abolição da escravidão sem qualquer reparação e nossa concentração de renda pornográfica) nunca foi das mais leitoras e todas as políticas voltadas para o fomento da leitura no país, desde sempre, passam pela tentativa de barateamento do livro, seja pela isenção fiscal, subsídios, entre outros mecanismo. Vale salientar que, ainda assim, esses produtos permanecem caros para a maioria dos brasileiros.

O problema é que no Brasil 2020, terra de Bolsonaro e das pistolas gritantes,

Filial contemporânea da Idade Média, reino da idiotice e do patético e ignaro cidadão de bem, não basta dificultar o acesso aos livros, é necessário combatê-los. É preciso censurar o professor, pautar e tutelar a imprensa, perseguir e execrar artistas, escritores e intelectuais. E não só. É imprescindível tributar os livros, para ver se somem de vez das vistas dos brasileiros.

Todos devem estar lembrados que Bolsonaro mandou desmontar a biblioteca do Palácio do Planalto, sede da chefia do Estado, para erguer uma sala com banheiro privativo para sua esposa Michelle. Sim, a biblioteca que guarda documentos e passagens oficiais da República quase deu lugar a um gabinete com bidê para a primeira-dama que recebe dezenas de cheques volumosos de Fabrício Queiroz, líder miliciano carioca e entidade sobrenatural que governa a família do presidente. O casal desistiu da ideia depois que vários órgãos oficiais condenaram a atitude e ameaçaram entrar na Justiça.

Alguém poderia esperar outra coisa do país que colocou um entulho como Abraham Weintraub para chefiar o MEC?

Não, né. Quando um terço da população é orientado ideologicamente por Olavo de Carvalho e a cultura nacional passa a ser comandada por um ex-galã da reserva de ‘Malhação’, taxação de livros é algo que está em perfeita harmonia com o ambiente.

Isenção fiscal, mesmo, só para armas e munições importadas para uso pessoal, conforme prometido pelo presidente numa entrevista dada em junho passado.

Tributar livros, isentar armas. A Argentina tem cinco prêmios Nobel, o Chile e a Colômbia dois e o Peru tem um. O Brasil tem o Bolsonaro. E vocês, querem livros pra quê? No xilindró surrealista irrespirável em que estamos presos, uma dose de cachaça terá mais utilidade.

Nem se Luis Buñuel produzisse ‘O Anjo Exterminador’ sob encomenda para o Brasil 2020 chegaríamos a tal grau de insanidade.

Num dos países que menos lê no mundo, atado a uma miséria endêmica quase impossível de ser vencida, muito por conta da ignorância e do abismo entre seus cidadãos e o conhecimento, o colérico presidente de República e seu obsceno ministro da Economia querem impor uma cobrança justamente sobre o item que mais faz falta aos brasileiros.

Parece mentira, mas não é. O ódio dessa gente volta-se contra absolutamente tudo que reluz conhecimento. Eles têm as trevas como objetivo final e não vão descansar enquanto isso não se consolidar. Mesmo que seja necessário cometer o abominável e herege ato de sobretaxar livros num país sem leitores.

Texto de Henrique Rodrigues originalmente na Revista Forum.


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