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Tempo de Leitura: 4 minutos

Flores para Algernon

Flores para Algernon

  Somos seguros de nossas personalidades. Você, se perguntado acerca de si mesmo, dará respostas assertivas sobre as características que melhor parecem delinear sua persona: Você é uma pessoa bem-humorada, tristonha, determinada, insistente, tranquila, exagerada, teimosa, etc, etc, etc. Mas quem garante que você é o que é? Até onde sua mente é maleável para

Tempo de Leitura: 4 minutos

 

Somos seguros de nossas personalidades.

Você, se perguntado acerca de si mesmo, dará respostas assertivas sobre as características que melhor parecem delinear sua persona:
Você é uma pessoa bem-humorada, tristonha, determinada, insistente, tranquila, exagerada, teimosa, etc, etc, etc.
Mas quem garante que você é o que é?
Até onde sua mente é maleável para te tornar outra pessoa?
Do que somos feitos se não de nossos próprios pensamentos?
O que faz você ser quem você é?
Suas atitudes? Ideias? Sua inteligência, talvez…

É mais ou menos essa a linha inicial que nos guia através das páginas de “Flores para Algernon“, sem que, na verdade, sejamos capazes de nos dar conta de que o livro é um verdadeiro tratado sobre a identidade humana, além de falar tão intensamente sobre o mal de ser inteligente.

Toda a história é narrada por Charlie, que escreve seus “Relatorios de pogreço”.

Sim, ele escreve mais ou menos assim, ou de uma forma até pior.

Acontece que Charlie é um adulto com problemas mentais, que atrapalham severamente sua cognição, além de carregar muito pesadamente traumas de abandono sofridos por sua “deficiência“.

Inscrito em uma escola para “Adultos Retardados” (conforme o próprio livro faz questão de frisar), Charlie é escolhido para fazer parte de um experimento completamente novo:

O rapaz seria submetido a uma operação no cérebro que, segundo os “dotores”, seria capaz de deixá-lo “mais isperto”, ou seja, uma cirurgia capaz de influenciar uma possível neurogênese e dar a Charlie a chance de progredir intelectualmente de forma acelerada.

Charlie, claro, seria a primeira cobaia humana.

Antes dele, só um ser vivo teria passado pelo experimento com sucesso espantoso:
O pequeno ratinho Algernon, que logo nos primeiros momentos do livro gera em Charlie um sentimento de frustração; Algernon, mesmo sendo um rato, é infinitamente mais capaz de realizar tarefas complexas do que Charlie poderia ser capaz de realizar tarefas simples.

Quando Charlie é submetido à cirurgia, as mudanças surgem aos poucos.

Uma jogada genial do autor, Daniel Keyes, foi permitir que soubéssemos de todas as coisas a partir dos “Relatórios de progresso” de Charlie, escritos por ele mesmo.
O passar dos dias ( e virar de páginas) nos traz a evolução ágil que permite ao moço, completamente comprometido intelectualmente, avançar aos poucos em seu vocabulário, em suas ideias, e em sua grande curiosidade em desbravar o mundo, à medida que seu cérebro parece cada vez mais disposto a agregar conhecimentos diversos.

A mudança de identidade se torna clara, quase agressiva, mas completamente factível com o enredo do livro.

Ao passo que Charlie se torna um homem inteligente, erudito, intelectual, capaz de falar 20 idiomas e de escrever artigos científicos, muitas das ocorrências tristes de sua vida como um “retardado” começam a tomar forma, de maneira que o protagonista passa a compreender seus medos, suas vontades, seus anseios.

Ao mesmo tempo em que vemos seu ego inflar junto com sua genialidade, notamos, facilmente, que Charlie não é um homem feliz, embora tenha um mundo em suas mãos.

No início do livro temos uma criança de 4 anos de idade mental no corpo de um homem de 29 anos.

No meio do livro, o que vemos é um homem envolvente por sua mente incrivelmente afiada, sua maturidade em lidar com o conhecimento, suas angústias existenciais com relação a sua família e a seus amores…
Um homem que perde os poucos amigos que tinha por ser inteligente demais.
Um homem que se isola na solidão de um cérebro que o bombardeia com milhares de pensamentos por segundo.

E a todo momento, durante a leitura, nos perguntamos: Quem é o verdadeiro Charlie?

Aquele que tem a mentalidade de um infante perdido, ou o homem da ciência, capaz de solucionar as mais sofisticadas equações, e ainda escrever tratados filosóficos?

A questão da dissociação de identidade não é citada no livro, porque Charlie é quem nos conta toda sua jornada, mas tudo fica muito claro, à medida que o rapaz se sente observado por seu antigo eu.

“Flores para Algernon” é um livro fascinante ( consegui lê-lo em dois dias, tamanho o desespero para saber o que iria acontecer a seguir).

Nele, temos a ascensão do homem: do primitivo ao mais genial ser humano.

Temos o supracitado questionamento acerca da real concretude da personalidade humana: afinal, você pode deixar de ser você?

Temos, ainda, uma discussão que nos leva além do debate meramente intelectual, mas que envolve toda a metafísica do amor:

A mente humana é a responsável pela construção do sentimento mais sofisticado delegado ao homem, ou seria o amor apenas um efeito de causa e consequência do mundo como ele é?

Este é um livro capaz de nos fazer questionar muitas coisas, especialmente o valor que a humanidade dá à inteligência, o desprezo pelos intelectualmente inferiores, e como a inteligência interfere em nossa saúde mental.
A angústia de Charlie é a forma exponenciada de como pessoas mais inteligentes sofrem com solidão, por não terem com quem conversar.

O preço da inteligência é a solidão.

Esse livro, sem dúvida, vai ficar entre os melhores livros que você já leu na vida.

Entre a ficção científica, a filosofia e a discussão acerca do amor carnal e do amor não-carnal, nos perdemos com Charlie em um labirinto maravilhoso…

Creio que nada do que eu disser aqui conseguirá aproximar sua mente da experiência inenarrável de ler essa obra de arte.

 


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