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Tempo de Leitura: 6 minutos

Você já fez terapia ou tem algum tipo de preconceito como eu tinha?

Você já fez terapia ou tem algum tipo de preconceito como eu tinha?

Música que ouvi enquanto revisava: Royal Blood – I only lie when i love you. Você já fez terapia? Ou tem algum tipo de preconceito como eu tinha? Acha que é coisa de gente fraca? Vem comigo que te mostro que é justamente o contrário.   Te digo que tem que ser muito forte para

Tempo de Leitura: 6 minutos
Música que ouvi enquanto revisava: Royal Blood – I only lie when i love you.

Você já fez terapia?
Ou tem algum tipo de preconceito como eu tinha?
Acha que é coisa de gente fraca?
Vem comigo que te mostro que é justamente o contrário.

 

Te digo que tem que ser muito forte para entrar nesse caminho sem volta do autoconhecimento e que eu recebi alta da terapia!
Não sabia nem que se recebia alta, nunca conheci alguém que tenha recebido alta e se tiver alguém lendo que já tenha me diga, por favor!

Já vi e ouvi de várias pessoas que se deram alta e simplesmente pararam.
Sumiram pelos mais variados motivos ou desistiram porque não enxergavam resultados.
E tem também aqueles que afetados por questões financeiras foram obrigadas a parar e isso infelizmente acontece e bastante, afinal terapia não costuma ser algo barato ou acessível. 

Já no meu caso foi algo assim:
“Vai lá e arranja outros problemas porque estes de hoje você mesmo pode resolver ou já resolveu e nem sabe”.
Não foi exatamente isso que a minha terapeuta falou, mas é o que ela deixou a entender.

Consequentemente…

Foi quase natural me recordar que em um dia estava eu todo encolhido em um sofá de corino branco, daqueles que grudam na pele quando você começa a suar.
E eu estava empapado de suor naquele dia, com sorriso (?) absolutamente pálido e sem saber por onde começar ou mesmo o que falar.
Sei muito bem que em momentos assim minha memória providencia um apagão que transforma o que foi dito ali dentro em um imenso borrão que, neste caso, não faço a menor questão de elucidar.

Melhor deixar quieto.
O que lembro é que estava absolutamente na defensiva, tenso, sem saber que diabos era aquilo e ainda por cima em uma terapia de casal!

Abrindo parenteses aqui.

Dentro do que fui me observando, no decorrer dos anos, eu tinha uma dificuldade latente em sorrir de verdade, me percebi sem saber como receber elogios mesmo merecendo, reclamava de tudo mesmo que estivesse tudo bem e também tinha dificuldades em ampliar o meu mundo para além dos portões da minha casa.
Muitas vezes nem eu me aguentava. 

E daí em diante segui a terapia sozinho. E divorciado.
Acredito que dificilmente me reconheceria caso pudesse me ouvir falando naquelas primeiras sessões anos atrás. 

Tá bom, até poderia se fizesse um bom e dispensável esforço mental, que implicaria numa vergonha danada de como eu agia em muitas situações.
Sim, eu sinto vergonha alheia, mas tenho as minhas também!
Hoje me vejo naquela época agindo de maneira muito arrogante em determinadas situações, não tanto como Jean-Dominique Bauby no Escafandro e a Borboleta, mas ainda assim o bastante para hoje me deixar envergonhado.
E neste caso prefiro deixar aquele cara quieto e sem voz.
Como eu fui não me faz falta alguma a não ser pelo aprendizado que obtive dali.

Sei que corrigi várias das minhas questões.

Quem me conhece pode confirmar! Não é papo meu.
Já em outras aprendi o caminho que posso seguir ou ao menos o caminho do chaveiro para abrir determinadas portas que antes eu nem sabia que existiam.
Talvez seja melhor dizer que hoje sou a mesma pessoa, porém com outras percepções e prioridades e  que esta outra pessoa estava por baixo dessa grossa casca que eu mantinha como uma espécie de escudo protetor.
E para sair dela deu um trabalho da porra.
Você enxergar comportamentos que te incomodam e bater de frente numa espécie de enfrentamento com você mesmo pode ser pesado.
E ainda assumir (para você mesmo) que faz cagadas sistemáticas e reincidentes é muita porrada no ego.

É um exercício de desconstrução e desapego muito profundo e doloroso, mesmo que saiba que a essência de quem sou estará ali para sempre.
O equilíbrio entre estes dois momentos é o que dá trabalho pra.
E garanto que não há nada mais revelador do que se ouvir expondo em voz alta aquilo que passa pelos pensamentos e é daí que vem a vergonha que citei lá em cima.

Me lembro claramente de como media e calculava as palavras nas primeiras sessões.

Com um enorme receio em me expor. De abrir o jogo de verdade.
E percebi que nem mesmo com meus amigos mais próximos eu falava, na totalidade, tudo que sentia ou fazia. Ou que pensava em fazer.
Não me achava livre dos julgamentos externos.
E, de fato, não era e não sou ainda, mas hoje sei como me proteger deles.

Pedra a pedra o muro foi sendo colocado abaixo ou em uma altura que me protegesse, mas não me impedisse de ver o que havia por trás dele.
E em alguns momentos pude pular este muro e ver o que acontecia do outro lado.

Quem é você?

Eu sequer havia parado, em algum momento da vida, para perceber quem eu era e quem eu gostaria de ser.
Não sabia sequer responder a pergunta: “Quem é você?”.
E é assustador quando você se acha em dificuldades em formular esta resposta.
Aí aprendi que ao me definir não precisava falar de trabalho ou posição social e sim bastava prestar atenção ao que eu sentia e ali estaria eu.
Esperando calmamente pela resposta para o Quem é você, Fabio? que eu ignorei por tanto tempo.
E que sou a junção de todos aqueles que me antecederam, uma construção imperfeita pelas individualidades, pelo tempo e pelas vivências acumuladas.

Você já fez terapia

Demorei a perceber o que me rodeava.

Os erros que cometia com os outros.
Os erros que cometia comigo mesmo.
E o que eram de fato erros e o que eram características minhas que deviam ser respeitadas, principalmente por mim mesmo.
E que não precisava me crucificar por isso, pois também entendi que a essência em si nunca muda.

Você é quem você é.
Mas determinados comportamentos podem ser compreendidos pela origem e colocados de lado para que outros mais saudáveis apareçam e tomem lugar.
E com o tempo você se pega até gostando de ter estes novos comportamentos e vivências e aprende a dar espaço a eles. 

Arrisquei, tentei e consegui.

Em outros momentos não consegui e está tudo bem.
Parte pra próxima questão e vamos embora.
Passei a dar um valor danado ao tempo que gasto aqui na Terra e como o uso.
Perdoem se deixei a impressão que hoje sou um ser elevado e equilibrado, não foi isso que quis dizer.
Não mesmo!

Continuo a carregar meus defeitos e tento lidar com eles com a maior naturalidade possível, com a diferença que hoje sei quais são e como fazer para deixá-los quietos.
Isso na maior parte do tempo.

Às vezes não consigo e segue o jogo! 

Também falo de parte das crenças que me foram dadas como herança e que algumas eu arremessei pela janela e foda-se.
Não eram minhas mesmo.
Características familiares não devem ser fardos carregados de maneira conformada, afinal nossos familiares também erram e não preciso cometer os mesmos erros.
Já outras características estão aqui quietas e podem ser usadas em algum momento ou estão apenas aguardando o momento de também serem descartadas.
Muitas vezes nem percebemos quando mudamos um comportamento e a vantagem neste caso é que, na maior parte das vezes, eu decido e não qualquer arroubo de ira ou raiva desmedida.

Eles acontecem, mas em menor número e nunca sem me perceber nele.

Aprendi a ficar em terapia por 24 horas.

A me observar. A me respeitar. A me controlar (na maioria das vezes).
E a não permitir que problemas externos me afetem.
Consigo hoje criar uma espécie de redoma que me mantém afastado daquilo que pode me trazer desequilíbrio e também de quem pode afetar este mesmo equilíbrio.
Algumas pessoas sabem qual é a minha kriptonita.

Aprendi a não me sentir culpado por me afastar de quem não me faz bem.
Faz parte e muitas vezes esse afastamento é bom para todo mundo.

Preconceitos e juízos de conceito estão bem trancados e silenciados.

E nesse período de pandemia,

Que coincidiu com o começo de uma nova fase minha, posso dizer que dei uma sorte danada de estar em terapia online (mesmo que online!) e se tem algo de bom que eu possa passar a vocês é:
Que não me lembro de outra época em que auxílio psicológico tenha sido tão importante como agora.

Em quarentena, isolados, distantes daqueles que amamos, cheios de dúvidas, de incertezas e de medos.
Em mim, pelo menos, estes sentimentos já estavam presentes e lidar com este “inimigo” que costuma habitar nossas cabeças é tarefa das mais complicadas.
Fechado em casa mais ainda.

Você já fez terapia

Das sessões presenciais de terapia…

Levo comigo a memória do café cowboy obrigatório nas sessões noturnas, a interminável paciência da minha terapeuta e suas risadas com meus arroubos de fala ininterrupta e frenética. 
E também a importância de me perguntar pra quê? sempre que algo possa não fazer sentido algum no meu comportamento ou em meus pensamentos.
Perdi a conta de quantas vezes ouvi dela:

Pra quê discutir?
Pra quê provocar determinada pessoa?
Pra quê se incomodar com tal situação?

Papos de botequim.

Nos últimos anos cresceu em mim a impressão de que as sessões se tornaram tão leves que poderiam ter sido feitas em qualquer botequim ou mesmo ao ar livre como chegamos a fazer uma vez.
Não sei se por mim ou por ela.
Ou por ambos.

Também não me esqueço das crises que tive e dos meus momentos de desequilíbrio e das várias rupturas.
E que agradeço muito por várias delas eu estar ali.
No lugar certo. Com a pessoa certa. E justamente na hora que mais precisava.
E assim aprendi que as coisas acontecem exatamente com têm que acontecer e chega a assustar de tão perfeito que é.
Ou de como poderia ser.
Sem forçar a barra.

E se algo sair dos trilhos posso voltar pra próxima temporada.
E tá tudo bem.

 


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2 Comentários

  • Vanessa
    23 de outubro de 2020, 21:37

    E uma das funções da terapia é justamente essa: descortinar esse eu que às vezes nem conhecemos, que foi ensinado a se esconder. Terapia é vital! E seu texto, maravilhoso. Parabéns!

    REPLY
    • Fabio Pires@Vanessa
      26 de outubro de 2020, 19:38

      também acho vital. Quando dermos a devida atenção à saúde mental muitos dos conflitos internos e externos serão apaziguados.

      REPLY

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