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Tempo de Leitura: 4 minutos

Feliz em um mar de livros

Feliz em um mar de livros

Você se imaginou em um mar de livros? Minha infância, por absoluta sorte, foi passada em um pequeno mar de livros. Me lembro com exatidão dos meus sete ou oito anos em que buscava o que ler em casa o tempo todo. E eu não me importava se era o jornal de domingo inteiro (inclusive

Tempo de Leitura: 4 minutos

Você se imaginou em um mar de livros?

Minha infância, por absoluta sorte, foi passada em um pequeno mar de livros.

Me lembro com exatidão dos meus sete ou oito anos em que buscava o que ler em casa o tempo todo.
E eu não me importava se era o jornal de domingo inteiro (inclusive os classificados!), alguma revista de fofocas perdida na sala e todo e qualquer livro.
Se estava dando sopa eu pegava para folhear.
E por alguma razão sempre havia algo espalhado pela casa e por isso digo que tive sorte de estar em um pequeno mar de livros e revistas.
Portanto desde muito cedo meu interesse pela leitura foi estimulado e aguçado.
Uma memória engraçada que me veio agora:
Falando em Classificados, eu achava que carro zero era aquele que não corria nada. “Quem vai querer um carro que não corre?” ingenuamente pensava enquanto folheava o jornal.
Crianças, né?

Como estimular uma criança para leitura?

Não faço a menor idéia.
E também não acho que exista uma receita de bolo para estimular uma criança no hábito da leitura, provável que basta ter algo ao seu redor, ao alcance de suas mãos e que a curiosidade da idade falará por si só.
Pode ser que esteja simplificando demais já que a concorrência com os eletrônicos se torna cada vez mais desequilibrada e injusta, mas ao menos vai esta dica já que na minha casa, mesmo que sem intenção, funcionou assim.
Sei também que nos anos 80 do século passado essa concorrência pela atenção das crianças era muito menor. Ou vai ver eu que gostava mesmo de descobrir o que acontecia dentro dos livros.
Quem vai saber?
Só sei que muitas vezes lia em casa literatura que definitivamente não era para minha idade como estes abaixo que lembrei:

Lembro de ler por várias vezes “Eu, Christiane F., 13 anos, drogada e prostituída”.

E de me impressionar em todas elas com a descrição absolutamente detalhada da decadência de Berlim e também dos seus personagens Detlef e Christiane.
A crueza na descrição do conjunto habitacional de concreto que, além de cinza, cheirava a mijo e merda. O fácil acesso mesmo de crianças ao haxixe, alcool e com 13 anos descobriu a heroína.
Os detalhes da fragilidade física deles como consequência do abuso de heroína, a brancura na pele, as veias que saltavam dos braços finos e a gradativa negação de que o vício já tomava conta dos hábitos dos personagens.
Assim como todo o processo para conseguir a droga. Na verdade, a sua busca desesperada que é explicada em parte pelo título do livro.
E digo que provavelmente boa parte do meu cuidado (medo) com drogas (ilícitas) tenha nascido deste livro e acho que ainda tenho o mesmo exemplar cheio de remendos por aqui em algum lugar.

Também me recordo de folhear “Nem Marx Nem Jesus” de Revel.

Que tinha uma frase na contracapa que só veio fazer algum sentido muitos anos depois:

Os costumes se transformam, os negros se revoltam, as mulheres lutam por seus direitos, os jovens se recusam a aceitar a ordem estabelecida, cresce o desejo de igualdade, o desprezo pela política com finalidades de dominação internacional, cresce a preocupação pela natureza ameaçada pela técnica. É a revolução que já começou, para mudar a face do Homem e da Terra.

E diga-se, parece que ele escreveu este texto ontem e tenho este exemplar comigo até hoje.

Tive o sutil impacto deixado pelo “Pequeno Príncipe”.

E que por algum tempo me fez questionar porquê diabos este livro era tido como “obrigatório” para toda criança da minha idade.
Isso porque na minha cabeça infantil não fazia sentido algum um livro cheio de desenhos ser algo tão importante.
Para um moleque curioso que adorava estudar sobre histórias de Segunda Guerra era muito mais interessante saber que seu autor foi piloto da Força Aérea Francesa.
E que foi alvejado em uma missão de reconhecimento!
E que nunca acharam seu corpo!
Somente anos mais tarde percebi o quanto este livro me acolheu na passagem para vida adulta e que hoje o tanto que me avisou e auxiliou na minha tentativa frustrada de achar a criança que fui calando aos poucos dentro de mim.
E agora com um pouco mais de consciência o entendo melhor.
E também por me proporcionar pensamentos inacreditavelmente atuais e que me acertam no orgulho em vários momentos como:

As pessoas são solitárias porque constroem muros aos invés de pontes.”

Ou

É bem mais difícil julgar a si mesmo que julgar os outros.”

Tinha também “O poderoso chefão”.

E este entra naquele rol seleto de livros que quando transformados em filme se equivalem na riqueza de detalhes tanto que até hoje encontro em um as minucias colocadas no outro.
A violência em si, seu complexo senso de errado e certo, assim como o de lealdade e traição e como Mario Puzo e Coppola foram soberbos em realçar os momentos de maior tensão na trama.
Resumindo?
Uma autêntica Obra-Prima.
Com letra maiúscula.

Lembro nitidamente da porrada que tomei quando terminei de ler o “Diário de Anne Frank” pela primeira vez.

E digo com certeza que foi este o que mais me marcou.
E que muitas e muitas vezes imaginei como seria viver escondido por pouco mais de dois anos naquelas condições e por aqueles “motivos”.
A injustiça e a minha incompreensão infantil pela existência de algo tão sórdido como o preconceito.
“Como Deus pôde criar algo assim?” me perguntava muitas vezes.
E até hoje ele deve estar muito ocupado, pois nunca me explicou.
Hoje vejo que evoluímos muito pouco neste campo.
Na verdade parece que regredimos e lendo este livro achei no caminho da escrita uma saída para o que sentia e não conseguia identificar.
Por isso mesmo tão jovem comecei a escrever em um diário o que provavelmente estimulou mais ainda meu gosto pela escrita.

Concluo sentindo ainda hoje e nitidamente o cheiro do papel.

E neste aroma se materializam várias nuances da vida em histórias que vivenciei através das experiências de seus autores.
E que hoje finalmente me perco entre aqueles que já li muitas vezes.
Assim como daqueles que li apenas uma vez.
Tanto quanto aqueles que folheei e pacientemente estão aguardando sua vez na minha estante.
E que certamente terão sua vez.
Só sei que ainda hoje me acho no meu mar de livros e emoções.

Imagem por freepik.com.


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