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O lúdico, o positivo e o negativo de 30 anos de trabalho

O lúdico, o positivo e o negativo de 30 anos de trabalho

Você já fez uma síntese de sua vida profissional? Uma espécie de auto avaliação de trabalho? Então, faço uma agora não para chorar pitangas, mas para poder observar o que de bom e de ruim veio a reboque de cada situação e do caminho que segui ou que inconscientemente fui colocado a seguir. E nisso percebo

Tempo de Leitura: 6 minutos

Você já fez uma síntese de sua vida profissional?
Uma espécie de auto avaliação de trabalho?

Então, faço uma agora não para chorar pitangas, mas para poder observar o que de bom e de ruim veio a reboque de cada situação e do caminho que segui ou que inconscientemente fui colocado a seguir.
E nisso percebo que várias percepções que carregava enquanto criança e adolescente se perderam pelo caminho.

Pois bem, hoje dia 17 de dezembro de 2020 completo 30 anos que comecei a trabalhar com carteira assinada e sempre lembro desta data e dos detalhes que cercaram este primeiro dia.
Afinal começar a trabalhar com catorze anos de idade é algo que sempre deixa marcas e molda muitas características, não tem jeito.
E em qualquer pessoa.
Positiva e negativamente.
Não tem jeito.
E toda vez que analiso esse campo desde então me leva a estas duas percepções:
Positiva e negativamente.

E por que estou falando isso?

E falando de novo, pois certamente já falei sobre isso em algum espaço desta página, talvez não me aprofundando muito, mas me deixe explicar.
Recentemente estava conversando com alguém (E me desculpe não a citar nominalmente, pois não lembro quem era mesmo) sobre isso e fui perguntado com certo entusiasmo:

-Pô, mas começar a trabalhar cedo é bom, não?

Minha resposta, depois de uns segundos, refletindo por um ponto de vista que até então não tinha percebido foi mais ou menos esse:

-Sim e não.

Sim.

Porque trabalhar me deu responsabilidades que assumi desde cedo como minhas, e foi essa postura responsável que me trouxe até aqui como sou.
Não apenas responsável, mas com alguns sinônimos que cercam esta palavra.
Comprometido, esforçado e pontual me servem como características que fui agregando desde cedo.
Nem todas eu precisava de fato carregar, já que esse peso era infinitamente desproporcional ao que estava preparado para aguentar, mas assim foi e assim sou.

Sei também que trabalhar cedo que me livrou do destino similar ao de muitos colegas e amigos de infância que morreram envolvidos no tráfico de drogas que até hoje existe perto do conjunto habitacional onde morei quando mais jovem.
Ocupar a cabeça me foi muito útil nessa época.
Começar cedo me obrigou a raciocinar mais rápido, de ser prático ao extremo e a aprender a lidar com questões que podia resolver sozinho ou não.
E até hoje sei perceber bem aquilo que posso ou não posso resolver logo de cara.

Me tornei responsável pelas contas da minha casa, aprendi o valor do meu suor e antes disso tudo posso dizer que o fato de ter trabalhado em uma empresa grande (a falecida Varig) com perspectivas e estímulos ao estudo fez toda a diferença.
Neste quesito dei muita sorte.
Conheci pessoas de comportamentos diferentes e que foram importantes nessa caminhada.
E até hoje me servem de exemplo.
Positivo ou negativo, claro.

E não.

Porque uma parte bem significativa do que tratei na terapia é fruto de ter justamente adquirido tantas responsabilidades que hoje vejo que eram muito pesadas para a pouca idade.
Ter pulado a minha adolescência diretamente para a vida adulta me embruteceu e aumentou minha capacidade introspectiva.
A inibição do meu já minguado lado lúdico me afetou muitos anos depois.
E falo isso porque sei que a prática do lúdico, que é importante instrumento na formação das crianças e adolescentes para que se tornem adultos com menor número de frustrações, não me foi permitido em um ambiente cercado por adultos que lidavam com as suas próprias frustrações e com a própria sobrevivência.
O lema era:”Farinha pouca, meu pirão primeiro”.
E conviver com adultos vividos e em constante competição foi algo que realçou em mim uma falta de empatia que venho reconstruindo agora muitos anos depois.

E como consequência quase que natural aprendi a falar pouco e a observar muito.
Assim como ignorei por muito tempo sentimentos que até então via como ferramentas para me tornar frágil e que seriam desnecessários.
Ignorava sentimentos e pensamentos, ou seja calava quem eu realmente era.

Ter calos nos pés de tanto andar com um pesado 752 para alguém que só calçava chinelos e chuteiras era justamente o coveiro de todos meus sonhos de moleque.
A partir dali não tinha mais sonho em me tornar jogador de futebol e por um bom tempo tentei substituir este sonho por outros.
Também por isso foi bom e ruim.

O lúdico, o positivo e o negativo de 30 anos de trabalho

Lembro também de ouvir com razoável frequência:

“Ah, mas eu comecei cedo a trabalhar na firma do meu pai e nem por isso deixei de ser adolescente”.
Ou ainda: “Ainda bem que foi assim e blá blá blá”.
Deixe explicar que há uma diferença gigantesca em trabalhar para o seu pai e para outras pessoas que não têm qualquer vínculo a você.
E há outra diferença enorme em trabalhar desde cedo por NECESSIDADE e não para “aprender o valor do dinheiro que papai me dava”.
Me perdoem aqueles que se enquadram nestas frases repetidas em forma de autoproteção, mas não há nenhuma possibilidade de comparação.

Aprendi a me defender constantemente e cada vez com menos empatia.

Lembro-me do caso de um motorista da Varig, já bem idoso, que perdeu um dedo mexendo no motor do seu fusquinha também velho, o que o levou a uma licença de alguns meses em casa para se recuperar.
E eu no auge da minha “concepção de entendimento de mundo e vida” disse:
“ Ainda bem que sobraram os outros nove, hein?”
E só muitos anos depois fui capaz de perceber a crueza de uma piada absolutamente desnecessária e que naquele momento para mim era “normal”.
E pior. Este comentário não foi muito diferente dos outros comentários dos caras que trabalhavam comigo.
Ah! E o que citei como concepção de entendimento de mundo e vida você, hoje, pode traduzir para ESCROTIDÃO. Não precisava ser assim.

Poderia também me lembrar de vários outros momentos como esse que citei acima.
Poderia pensar se foi justo o quanto recebi em troca do meu tempo e da minha força de trabalho.
Poderia pensar no quanto fui influenciado por todos com quem trabalhei.

Mas acho que cada um deles mereça um texto individual e assim o farei em breve.

Alguns podem dizer (Como já ouvi):
“A vida é assim mesmo! Ainda bem que você aprendeu isso cedo!”.

Para estes só consigo balançar a cabeça negativamente, afinal hoje entendo que para tudo há um tempo exato e quando ele se adianta, por qualquer motivo, cria um desequilibrio.
Ou vários.
Algumas pessoas nem o sentem, outros nem sabem do que se trata, mas o desequilíbrio está ali e em algum momento vai colocar a cabeça pra fora da janela e dar uns berros.
Não precisava ser assim, mas foi e ainda é assim.

Não que eu não precisasse trabalhar para ajudar em casa.
Precisava e muito e sou grato por ter tido a chance de trabalhar em uma empresa grande que me abriu uma série de portas na minha vida profissional inteira. E dei muita sorte, eu sei.
Poderia não ter sido assim, mas foi.

Ter sentimentos endurecidos é algo que demorei a entender a origem e que sempre carreguei (e carregarei) como parte de minha personalidade.
Personalidade que já foi mais fria, mas que ainda hoje a é.

 

Nestes 30 anos mudei de área algumas vezes.

Aviação. Turismo. Casas de câmbio. Televisão.
Conheci gente de todo lugar e de todo tipo.
Pilantras, preconceituosos, finos, polidos, arrogantes, humildes…
Gente famosa, gente que pensa que é famosa, gente que pensa que por ser famoso pode tudo, gente que pensa que é gente…
O saldo foi positivo na quantidade de histórias e risadas vindas dessas experiências todas.

Tive diferentes tipos de chefias.
O compreensivo, o brabo, o pilantra, o falso… E em ambos os sexos.
Tive aqueles que se tornaram bons amigos e aqueles que prefiro nem lembrar do nome.
Aqueles que hoje chamaria para tomar uma cerveja e aqueles que nem serviria um copo de água.
E faz parte.
E fui chefe também e garanto que não fui dos melhores, assim como em alguns momentos não devo ter sido um bom subordinado.
Faz parte.

Ah! Agora me veio na lembrança o uniforme de calça de tergal e camisa de botões impecavelmente passada pela minha avó, da tensão pelo primeiro dia e como me senti desconfortável e deslocado naqueles primeiros dias.
E do alívio que senti quando não precisava mais usar uniforme.

E como me adaptei a todas as mudanças que passei, assim como me adaptei a todas as pessoas com quem convivi.
Talvez não tenha movido uma palha da persona que criei e tenha até afugentado algumas pessoas, mas fui dando meu jeito e me defendendo como podia.

Para finalizar.

Lembro de várias outras histórias e percepções que obtive neste período, claro que positivas e negativas e não saberia colocar em uma balança o meu saldo.
E longe de querer cagar regra para alguém, mas se eu tivesse um filho tentaria ao máximo deixar cada momento para seu tempo.
O ludico deveria ser um direito tanto de crianças quanto de adolescentes.
Ah! E tentaria atrapalhar o mínimo possível não transferindo parte das minhas frustrações e questões.
Afinal quem poderia dizer que um moleque de catorze anos não foi modificado profundamente pelo meio que convivia?
Positivamente e negativamente.

Foto de: Adrian McDonald.


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