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Tempo de Leitura: 3 minutos

Um dia qualquer de trabalho

Um dia qualquer de trabalho

No trabalho. Me vi submerso em pensamentos desconexos em um dia qualquer de trabalho… Cara, que vontade absurda de chorar e de molhar estas folhas não apenas com lágrimas minhas. E não saberia neste momento definir alguma razão. Fosse lógica ou absurda. Incoerente ou irracional. Apenas sinto. Na calma e na tranquilidade do meu ambiente de

Tempo de Leitura: 3 minutos

No trabalho.
Me vi submerso em pensamentos desconexos e
m um dia qualquer de trabalho…

Cara, que vontade absurda de chorar e de molhar estas folhas não apenas com lágrimas minhas.

E não saberia neste momento definir alguma razão.

Fosse lógica ou absurda. Incoerente ou irracional.

Apenas sinto.

Na calma e na tranquilidade do meu ambiente de trabalho me afogo em memórias e pensamentos mais longínquos que os de habitual.

Coisas de quem trabalha absolutamente sozinho e dessa maneira vou longe.

O choro ainda não saiu, mas está aqui em algum lugar.

Travado. Fincado. Mudo.

Exatamente igual ao mal-estar que precede ao vômito.

Sei que está aqui em algum lugar e que vai sair, só não sei quando.

E ainda não mesmo a razão.

16h16min.

Falta muito tempo ainda? Muito tempo para que mesmo? Quero ir embora!

Também tenho meus momentos de não querer ver gente, de recolhimento e de introspecção.

Penso em tudo que me rodeia. Penso no que abandonei pelo caminho. Penso, penso e penso e talvez até por demais.

Sinto finalmente uma brisa do ar condicionado falho do aeroporto acariciando meus cabelos e apaziguando o calor no meu crânio que vive em silenciosa ebulição.

24 graus, mas parece os 45 de Bangu.

No radinho de pilha velho que mantenho como companhia toca “The perfect drug”. No momento perfeito.

Mas nem assim paro de pensar por um único instante. Nem um minuto de folga.

Penso também em mais um período que não poderei viajar, bater asas, sentir ares diferentes, perceber hábitos diferentes e buscar algo que chame de meu nirvana.

Sem poder sair daqui tão cedo.

Quero muito viajar. De preferência sozinho e para longe.

Continuo a agir totalmente em desacordo com o que sempre acreditei.

Quem pensa muito age pouco, dizia eu no alto da minha incrustada arrogância.

Hoje, quem diria, eu penso.

E demais.

Maldita vontade de chorar que ainda está por aqui.

No silêncio quase sepulcro dos entre voos que me encontro, várias  memórias emergem na lembrança de quem fui.

E em alguns momentos tomam lugar da razão e tomam de assalto o que sempre tive de mais precioso.

Fico sem reação e sem lógica. 

Maldito relógio que não marca logo 23!

Visão já está cansada dessa luz forte e do cansaço de fritar os miolos.

Visão já turva, como num deserto onde vejo, mas não enxergo.

Visão que sempre foi meu ponto fraco.

E agora sinto saudades…

Saudades do que não mais terei, talvez por isso só agora as primeiras lágrimas teimem em escorrer sem ordem ou qualquer consentimento meu.

O que elas querem dizer eu não tenho ideia, até suspeito, mas não posso confirmar.

Tenho receio de confirmar.

O que será desta vez?

Essa gangorra de emoções e sentimentos me consome por demais.

Parece que minha bússola marca só para o sul.

Ouço finalmente passos apressados de quem desembarca com mais de quatro horas de atraso.

Semblantes fechados, cansados, típicos de um voo ruim, demorado e cheio de contratempos.

O tempo lá fora também estava ruim.

Chovia quando cheguei.

Agora não sei.

Aqui dentro também chove.

Um inocente “boa tarde” para alguns pode parecer deboche.

Então me calo.

Alguém da televisão desembarca quase incógnito.

Inclusive para mim que não o reconheço de imediato.

Faz parte daquela turma do famoso quem.

Um senhorzinho estiloso com andar engraçado de quem tem as pernas arcadas, porém ritmado.

Belo chapéu, senhor.

Só que não.

Uma jovem loira de seios fartos passa apressadamente por mim tentando sem sucesso segurar o choro. Em vão.

Junte-se ao clube, menina.

Mas já está tão perto, tomara que ele esteja lá fora te esperando e não de onde você veio. Ou eles ou talvez ela. Não importa.

Um judeu ortodoxo, o engravatado que deve estar correndo para pegar alguma conexão, uma família em que os dois filhos pequenos estão à beira de deixar a mãe em uma camisa de força e seu olhar fundo com olheiras pede por piedade e descanso, o deportado desolado e acompanhado pelo Policial Federal certo que estará no próximo voo de volta, os gringos com cara de gringo cansados demais para comemorarem a chegada, a moça que parece estar de mudança devido ao número de malas que carrega e pelo semblante tão pesado quanto ao da bagagem, o alcoolizado que aos solavancos carrega sua malinha, duas freiras risonhas (as únicas a sorrir), o cabeludo que anda como se caminhasse em nuvens (ops!) e por último uma senhorinha muito simpática  com sorriso vitorioso e que ao chegar ao balcão logo me pergunta:

Quer um lenço, meu filho?

 

Foto por Pixabay.


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