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Tempo de Leitura: 4 minutos

Precisamos falar de Merlí e o poder da filosofia

Precisamos falar de Merlí e o poder da filosofia

Quem somos? De onde viemos? Para onde vamos? São estas algumas das perguntas clássicas da filosofia. Aquelas que não temos uma resposta pronta e pode nos fazer mergulhar em várias possibilidades. Desde que pensemos.   Na série catalã produzida pela Netflix, Merlí é um professor de filosofia desempregado, divorciado, despejado e que por isso precisa

Tempo de Leitura: 4 minutos

Quem somos? De onde viemos? Para onde vamos?
São estas algumas das perguntas clássicas da filosofia.
Aquelas que não temos uma resposta pronta e pode nos fazer mergulhar em várias possibilidades.
Desde que pensemos.

 

Na série catalã produzida pela Netflix, Merlí é um professor de filosofia desempregado, divorciado, despejado e que por isso precisa morar com a mãe e com o filho adolescente com quem até então tinha pouco contato.

O professor, que dá nome a série, tem métodos não muito convencionais (ou se preferir fora dos padrões preestabelecidos por alguém que sequer conhecemos), é sedutor e tem caráter duvidoso, por assim dizer.

E essa certamente é uma definição superficial ou apenas inicial de um personagem que na verdade é bem mais profundo e instigante.

Quando consegue emprego de professor substituto em um instituto de educação, Merlí nos mostra a filosofia na prática, no uso puro do dia a dia.

E não haveria melhor maneira de simplificar (e exemplificar) seu entendimento que na complexidade das relações humanas, quando nem mesmo percebemos que a filosofia está ali presente em nossos atos.

Filosofia é vida

Para direcionar e facilitar a compreensão do tema, todo episódio é dedicado a algum filósofo ou movimento filosófico relevante. E dentro dessa enorme gama de pensadores, o diferencial da série é transformar a sala de aula em um constante exercício de reflexão utilizando problemas e questões familiares dos alunos e professores como exemplos das ideias do pensador abordado.

Sem deixar de fora os dilemas que todo adolescente passa e que estão ali representados em suas contradições, complexidades e adversidades.

Merlí é a fagulha que tira os alunos, seus pais e os outros professores do Instituto do tédio e da mesmice.
E faz isso muito bem.

Há referências importantes

Assim que chega a sala de aula Merlí batiza seus alunos de Peripatéticos em homenagem aos aprendizes de Aristóteles. Peripatético é a palavra em grego para itinerante ou ambulante em razão do hábito do filósofo em ensinar enquanto caminhava ao ar livre.

A mosca presente na abertura voando freneticamente é uma referência a Sócrates que se comparava a uma mosca chata por perturbar os atenieneses com questionamentos que muitos deles sequer tinham imaginado antes.

A presença de uma coruja branca (animal observador e de visão ampla) em todos os episódios simboliza a deusa Atena, deusa da sabedoria.

O mito da caverna é mostrado pelo personagem Ivan, o adolescente vítima de bullying que sofre de agorafobia e que serve de mote para tratar do conceito da normalidade tratado por Foucault.

Precisamos de falar de Merlí e o poder da filosofia

Por que pensar incomoda?

E falo de maneira pessoal.
Há alguns anos me aventurei a explorar a filosofia de  Spinoza indicado por um professor que muito me guiou nos meus primeiros estudos.

O que veio a seguir foi a constatação de que precisaria tirar folgas esporádicas destes estudos, já que conforme conseguia atingir determinada profundidade no objeto de estudo me via às portas de uma desesperança que no começo eu tratava falsamente como “percepções tardias da vida”.

Quando se recusa as respostas prontas produzidas pela religião ou pela sociedade, você primeiro se observa só e a cada mergulho nos entendimentos do comportamento humano nos vemos mais sós ainda.
E de cara essa percepção assusta.

Na série, Merlí trata essas percepções da maneira mais natural possível, para justamente não afastar ou amedrontar seus alunos e ainda consegue mostrar que pensar pode ser um ato pesado, mas nos conduz a uma liberdade pessoal e única.

Suavizando o peso que os ensinamentos filosóficos carregam, Merlí consegue incorporar o pensamento ativo aos seus alunos não somente em suas avaliações em classe, mas os direciona para a vida.

Merlí é o anti-herói

O personagem-título é aquele que tenta escrever certo em linhas absolutamente pessoais e muitas vezes desconexas. Não diria tortas tentando fugir do óbvio.

Merlí não esconde suas fraquezas, falhas, desvios de caráter e pouco se importa com a maneira, mas sim em como resolver cada questão e desse modo, muitas vezes atropela procedimentos, pessoas e parte das convenções sociais.

Ele não foge do conflito ou mesmo o joga para baixo do tapete (inclusive o conflito é uma constante em todo episódio) o que sempre acarreta em uma conclusão, uma síntese e finalmente em um entendimento.

Todos temos a capacidade de filosofar?

Como animais racionais sim, já como seres raivosos em busca de desculpas para nossas frustrações, tenho dúvidas.

Falo isso porque em um momento que a filosofia é utilizada como muleta para reverberar discursos de ódio por parte de alguns que pouco têm de embasamento técnico (afinal astrologia é uma coisa e filosofia outra bem diferente).

Filosofar é uma coisa, produzir filosofia é outra bem diferente.

Nesse ponto a série atinge o objetivo de simplificar o entendimento da filosofia e fazê-la compreensível e isso ao trazer para o convívio ideias complexamente descritas em tratados filosóficos, mas que foram justamente percebidas e criadas a partir desse mesmo convívio e comportamento.

É o simples reproduzindo percepções complexas.

Então…

Merlí nos mostra que praticamos a filosofia o tempo todo, mesmo quando não a percebemos.

Mesmo quando nem sabemos.

Mesmo quando estamos “apenas vivendo”.

E que refletir e questionar pode incomodar e até mesmo doer, mas também pode nos fazer lidar melhor com as adversidades quando estamos focados no presente e assim mais aptos a percebê-las.

A filosofia nos torna pessoas mais críticas ou como diz o próprio no último episódio:

Objetivo da filosofia é combater a tolice e não se conformar com uma existência superficial.

Sem spoilers!

A série afasta qualquer expectativa de um final água com açúcar ou mesmo previsível e consegue nos mostrar com simplicidade que a vida é assim mesmo: Complexa e simples. Ao mesmo tempo.

Nos coloca em grau de igualdade quando mostra que todos nós passamos pelas mesmas questões e problemas e que podemos viver de maneira leve e bem humorada a despeito das frustrações da vida adulta.

E que a filosofia pode ser divertida, assim como a vida.

Quem somos? De onde viemos? Para onde vamos?

Não somos capazes de responder, mas nada impede que continuemos tentando alcançar alguma resposta.

Desde que pensemos.

 


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