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A arte e o ódio por Fernanda Young

A arte e o ódio por Fernanda Young

Ofensivo agora não é mais fazer sucesso, e sim fazer cultura Tenho, como escritora, deficiências, mas talvez a pior delas seja a ideia fixa em certas questões — portanto, peço desculpas. Mas, gente, o que é que está acontecendo? Brasileiro agora deu para ter ódio de artistas. Viramos todos uns “esquerdistas” que comem caviar, mamando

Tempo de Leitura: 2 minutos

Ofensivo agora não é mais fazer sucesso, e sim fazer cultura

Tenho, como escritora, deficiências, mas talvez a pior delas seja a ideia fixa em certas questões — portanto, peço desculpas.
Mas, gente, o que é que está acontecendo?
Brasileiro agora deu para ter ódio de artistas. Viramos todos uns “esquerdistas” que comem caviar, mamando em alguma teta.
E “essa mamata vai acabar”.
É uma implicância específica com quem faz arte — os famosos por qualquer outro motivo, tudo bem.
E famoso por qualquer outro motivo é o que não falta.

 

Nada contra os milhões de celebridades que surgem diariamente;

Aliás, confesso que quase nunca sei quem são. Mas ser artista é outra coisa.
Ninguém decide: “Opa, acho que vou ser artista”.
É algo do qual não se pode escapar. Que dói. Porque criar é doloroso.
Um ofício geralmente inglório, a arte nos convoca e nos rejeita com a mesma intensidade.
Poucos são os que têm aquilo que é necessário — a chamada “alma de artista”.
Pois trabalhamos com um instinto que está, primeiramente, a serviço de nossa própria salvação.
Enquanto os artistas tentam sobreviver ao afogamento metafórico, salvando o máximo de pessoas com eles, o culto das celebridades se abastece da profunda mediocridade.
Um mundo que gira em torno de abdômens tanquinho, maquiagens argamassa e papos furados.

 

Quando Tom Jobim disse que, no Brasil, sucesso é uma ofensa pessoal, mal sabia ele que, um dia, nem precisaria tanto.

Ofensivo agora não é mais fazer sucesso, e sim fazer cultura. Insistir em montar uma peça de teatro, lutar para realizar um longa que não seja mais uma bobagem, compor músicas com mais de três acordes: ofensas graves.
Leis de incentivo cultural: um abuso à população.
Ocupar espaços com instalações artísticas: um desacato à autoridade.
Montar um balé: uma falta de consideração.
Escrever um livro, fazer poesia, pintar: nada mais detestável.

Um artista não é mais importante que qualquer pessoa —“somos todos iguais, braços dados ou não”.
Mas é bom esclarecer que não há um tiquinho de facilidade naquilo que fazemos.
Nunca houve e nunca haverá.
Por sorte, ninguém faz arte porque é fácil.

 

Fonte: Colunista/O Globo.


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