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Over Fear. Into freedom – Somos gado

Over Fear. Into freedom – Somos gado

Há mais de dez anos, escuto músicas e versões de canções de um tal de Paolo Nutini.  Muito possivelmente você não o conhece. Mas recomendo fortemente. Aos 20 anos, acreditava que o jovem cantor escocês – que não raro fazia apresentações completamente bêbado – fosse uma espécie de bardo, disposto a recuperar canções de amor e

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Há mais de dez anos, escuto músicas e versões de canções de um tal de Paolo Nutini. 
Muito possivelmente você não o conhece. Mas recomendo fortemente.

Aos 20 anos, acreditava que o jovem cantor escocês – que não raro fazia apresentações completamente bêbado – fosse uma espécie de bardo, disposto a recuperar canções de amor e de amigo de uma forma contemporânea.
Ao som de Candy, Last Request e Rewind, eu ou(via) uma espécie de romantismo puro se instalar no cenário musical europeu.
Um garoto de 20 e poucos anos era capaz de fazer os apaixonados sonharem com suas próprias canções.
Era mágico.

Mas algo aconteceu.
O jovem romântico agora parecia um mensageiro de maus presságios.
Senti o peso de um mundo novo ao ouvir “Iron Sky”.
Atente-se para um fato interessante: Iron Sky é de um disco chamado Caustic Love, e foi gravado por volta de 2012. Ou antes.

E ainda assim, se você assiste ao videoclipe, ouve a música, presta atenção na letra, acompanha o trecho do discurso de Charles Chaplin sabiamente inserido na obra, o sentimento é exatamente o de que Nutini descreve o Brasil, muitos anos antes de sermos meros sobreviventes.

Seja na agonia do clipe que gera uma ideia de sufocamento e morte iminente, seja nas palavras duras contra uma opressão tão grandiosa que parece fazer o céu pesar sobre nossas cabeças; seja na crítica à sociedade, que defende um sistema inerte e nocivo, e que busca salvação, cria religiões para ter a possibilidade de deitar a cabeça no travesseiro à noite e dormir, embalado por drogas – lícitas ou não – ou vencido pelo cansaço.

Ao ouvir Iron Sky anos atrás, aos 24 ou 56 anos, cheia de desesperanças, acreditava que o single poderia ser uma música perfeita para a expressão do rompimento da inocência que uma pessoa tem com o mundo; Quase um rito de passagem através do qual aprendemos que nem tudo é sobre romance.
O Amor vai além de nós, a liberdade está para muito além de uma vida ordinária e a ilusões que criamos são, a exemplo das tantas distopias que conhecemos, uma gota a mais de gasolina nas engrenagens enferrujadas de nossas almas.

Contudo, hoje, aos 31 anos de idade, após um ano de Pandemia, como cidadã brasileira, tudo o que consigo ouvir é o aviso recursivo de que estamos sob um peso opressor.
Pior: Descobri que o discurso de Chaplin, tão belamente usado para conjugar à Iron Sky um tom de dramaticidade que extrapolasse um lugar-comum, estava errado.
Nós somos gado.

Paolo Nutini sumiu (literalmente, posto que ninguém sabe de seu paradeiro).
O romantismo evaporou com a voz rouca do talentoso escocês.
E o aviso sobre um firmamento opressivamente construído com ferro parece cada dia mais pesado para esse gado que morre sufocado sob as botas de um ditador.

 


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