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Tempo de Leitura: 5 minutos

Um café entre escombros

Um café entre escombros

Tomava um café sossegadamente enquanto tentava arrancar o restante da persistente ressaca da noite anterior.   Não ficava assim há muito tempo. Tudo girava e desse modo foi mais que necessário procurar um lugar conhecido para sentar e tentar trazer de volta um pouco de sobriedade. Ainda mais por este ser um dos poucos lugares

Tempo de Leitura: 5 minutos

Tomava um café sossegadamente enquanto tentava arrancar o restante da persistente ressaca da noite anterior.

 

Não ficava assim há muito tempo. Tudo girava e desse modo foi mais que necessário procurar um lugar conhecido para sentar e tentar trazer de volta um pouco de sobriedade. Ainda mais por este ser um dos poucos lugares que ainda mantinha o hábito de ir. Isso desde que li na parede do meu boteco predileto: Proibido discussões sobre politica. Nunca mais pisei lá. Queriam decidir até sobre o que eu poderia falar? Não mesmo.

Repousei a xícara ainda pela metade no pires e cocei o cavanhaque ralo, como sempre faço quando penso em algo que não está ao alcance da vista e de solução. Parece que ativa algum tipo de propulsão na minha imaginação que me leva para bem longe. Peguei a xícara de volta, me ajeitando para dar mais um bicada naquele café simples e saboroso que sempre pedia. Nada muito moderno ou chique. Apenas café.
Havia opções por demais e muitas vezes me perdia entre tantas. 

Como agora havia me perdido antes de um simples gole. Gole esse que seria mais um empurrão para me perder em mais alguns pensamentos longínquos e que me davam a sensação de isolamento, mesmo que cercado por algumas poucas pessoas. E pelo trânsito lá fora. A cidade berrava lá fora e eu aqui dentro fugindo dela.
Direcionei a xícara com cuidado para evitar os pequenos acidentes que sempre causo quando me distraio. Sempre fui assim e não seria agora que minhas mãos tomariam jeito.
E nesse exato momento vejo um pequeno caminhão-baú atravessar a vitrine da cafeteria que até então era bucólica e silenciosa. Um estrondo enorme que só não poderia usar algo como comparação por nunca ter ouvido nada parecido.

Certa vez, quando criança vi um botijão de gás explodir. Sequer se aproximava na violência.
Esse de agora era muito mais alto e violento e seguido de uma cena com efeitos especiais típicos de cinema.

Sequer consegui esboçar reação. Fui carregado pelo vácuo e pelo acúmulo de móveis deslocados contra a mesa que eu me encontrava. Até que bati estupidamente as costas em algo.

 

Escuto vozes de quem pensa em ajudar e de quem aos prantos já chamava pelos bombeiros.

Parece que acionei um modo alheio ao que acontecia ali. Uma espécie de autodefesa que me mantém inerte.
Não sinto medo. Mentira. Sinto sim. Medo de abrir os olhos e descobrir de fato como estou.
Sinto um peso nas pernas e no peito. Algo pressiona meu peito e outra coisa prende uma das minhas pernas. Não sinto dor. Pareço atônito, ainda sem entender bem o que acontece.

Bem, tenho que abrir os olhos e tentar entender como vou sair daqui. 
Debaixo de uma vasta poeira branca e espessa, ainda ouvia muitos gritos, pedidos de socorro e os estilhaços que ainda caíam pelo local. O teto do local com o impacto cedeu, assim como a lateral dos biomos que separavam as paredes dos banheiros. O caminhão só foi parar na bancada fixa que acho que era de mármore. Ou granito? Não importa agora, pois estava branca também.
Consegui virar um pouco o pescoço o que era um bom sinal.

Porém não consigo sair debaixo de alguns escombros que cobrem minhas pernas. E minha voz também não sai.
A voz da senhorinha na porta também sumiu. Aquela que pouco antes de entrar distribuía panfletos de uma igreja pentecostal e contestou minha negativa em receber o tal papel: Um pouquinho de Deus não lhe fará mal algum, insistiu quando detectou em mim toda a descrença que alguém poderia carregar.
Sorri de canto de boca: Já me basta o Deus que tenho em mim, respondi abusadamente.
A essa hora ela provavelmente já foi de encontro ao Deus que há nela.

 

Alguém berra do lado de fora dizendo que a ajuda já está vindo.

E alguns outros entram mesmo sem saber da possibilidade de desabamento. Heróis sem capa que falam hoje em dia, não é? Batido, mas neste caso verdadeiro. A sensação de impotência em não conseguir me mexer é indescritível. Ainda não consegui me localizar muito bem, mas sei que estou bem longe de onde estava sentado.
O cheiro de café torrado domina o ambiente. E me aciona um gatilho:

Sabe o que viria bem a calhar agora? Uma xícara de café nova. 

Consigo ver uma xícara parecida com a minha daqui onde estou. E intacta em cima de uma outra mesa.
Vejo também alguns celulares e bolsas espalhadas pelas mesas retorcidas e misturadas ao teto de gesso caído. Engraçado como buscamos algum consolo pela nossa cegueira em aparelhos como celulares e daqui ouço alguns tocando.
Alguém chama alguém que não pode atender a este alguém.
Aqui dentro os gritos continuam, mas pouco os ouço. Pareço ter construído uma barreira de som em que sei que há barulho, tumulto e confusão, mas consigo me manter alheio. E assim afasto o pavor. Há medo, não há pavor.
Estou presente, mas como se assistisse de fora.

Meus braços estão livres, mas só o esquerdo se mexe. O direito não funciona. Deve ter quebrado. Prefiro não olhar. Sinto que meus olhos estão arregalados como os de um gato visando a presa. A questão aqui é bem diferente, eu sei. Foi apenas uma comparação e seria bom não usá-las em um momento assim.
Ouço tudo e agora que a poeira baixou um pouco também consigo enxergar e pedir ajuda. Aqui embaixo de parte do teto e das mesas! Não sei se alguém ouviu. Ainda parece que falo para dentro como se falasse comigo mesmo. Estou com pouco ar porque tem algo pressionando meu peito.

Preferia como estava antes sem olhar.

 

Já consigo alguma força para tirar minha perna esquerda.

Meu lado esquerdo funciona, já o direito não. E sou destro. Só de dobrar meu joelho é sinal de felicidade por agora. Vejo os primeiros bombeiros avaliando o local. Engraçado que não ouvi sirenes e nem percebi a chegada dos caminhões.
Parece ter muita gente do lado de fora e aqui dentro não faço ideia de onde estejam as outras pessoas.
Ouço ainda urros, alguns pedidos de socorro, ao menos os berros cessaram.

Espero que tenham desmaiado de dor. Melhor que ver esse caos.
Eu também preferia ter desmaiado.

Assumo que sinto alguma graça na dualidade paz e caos. Em um segundo saímos de um para o outro. Bem, eu ao menos estava em paz. Pensando bem, não posso dizer que esteja agora no caos, mesmo sabendo que sempre pode ser pior. Sempre pode, exceto na minha cabeça ao menos.
Ao menos minha ressaca desapareceu, mas não nego que quero sair logo daqui.

Um bombeiro consegue me ver de fora da loja. Olhos treinados. Ele aponta para outros colegas enquanto decidem por onde entrar sem pisar em alguém que esteja por baixo dos escombros. Ainda ouço choros de dor, como soluçoes bem baixinhos, além dos urros, esse não cessaram.
A direção dos sons me confunde. Ei! Me tira daqui! Escuto ruídos. Algo range. Ou é algum osso meu que saiu do lugar ou ainda falta algo mais por desabar.

Pronto! Daqui dá  pra ver que chegou um canal de televisão.
Agora sim! O circo está montado.
E eu continuo querendo beber meu café em paz.
É, não vai ser dessa vez.

 


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