Algum dia poderei ser eu mesmo

Algum dia poderei ser eu mesmo?

Algum dia poderei ser eu mesmo?
E exibir em textos absolutamente aquilo que sair?
Sem me preocupar com o julgamento de outros?

 

Algumas vezes fui abordado com estas perguntas abaixo (e muitas outras tipoMas isso dá dinheiro?), em outras vezes me foi tentado desanimar visto que há muita competitividade (como em qualquer ramo).

Muitas vezes ignorei com um sorriso seco que dizia exatamente aquilo que pensei naquele momento e em outros momentos recuei enquanto me fechava como uma ostra.

Em ambos casos caguei solenemente para o que me foi dito e isso independente da intenção.

Resumindo, eu ainda ganhei a ideia deste texto-desabafo, igual a muitos que você pode ler neste nosso espaço.

 

-Olhe, você precisa escrever algo curto e direto já que hoje em dia ninguém mais lê!

-Humm, mas e se eu tiver algo mais a dizer? Não posso? Já sou econômico ao falar e ainda terei que ser no escrever também?

 

-Decida qual gênero você quer usar na literatura!

-E seu eu algum momento quiser experimentar e passear por outros? Não posso? É proibido? Há alguma regra que me limite a este ponto?

 

-Ninguém mais quer ler coisas depressivas, sacou?

-Assim fico confuso, você mesmo me disse que ninguém mais lê! E se estas “coisas depressivas” fizerem raciocinar e consequentemente, quem sabe encha as pessoas de respostas e de esperança?

 

-Pessoas querem ler coisas positivas e novidades!

-Mas e se estas pessoas quiserem apenas escolher o que ler? Não basta vivermos sob a influência cada vez mais forte da propaganda que nos diz o que consumir?

 

-As pessoas hoje não têm mais tempo e paciência para frases longas!

-Tempo esquisito este que Saramago morreria de fome, não é mesmo? E quando não consigo mais parar e tenho urgência de me esvaziar antes do ponto final?

 

E ainda teve mais como estas abaixo

-Não se atreva a cometer erro gramatical, por menor que seja!

-E se eu quiser cometê-lo? E se ele fizer parte do contexto? E se eu apenas não me importar com eles?

 

Muita atenção com as imagens que você postar!

-E se eu apenas quiser escrever? E escrever e, além disso, escrever…

 

-Quem escreve tem sempre que dar uma opinião!

-E se eu tiver mais dúvidas que o meu leitor? E já adianto que isso vem acontecendo cada vez mais, enquanto minha idade avança, a curiosidade aumenta e as dúvidas e questões se amontoam.

 

-Ah! E cuidado com a opinião que você der!

-Então, cá entre nós, em algum momento poderei ser eu mesmo? Nem enquanto escrevo? Viver sempre sob o crivo do que os outros pensam não me parece muito com meu sentido para o verbo “viver”. 

 

Cá entre nós

Já somos tão delineados para agirmos seguindo determinadas regras que muitas vezes me questiono que liberdade é essa que julgamos ter.

E na arte (seja na literatura ou na música) é onde tento viver sem amarras apesar de saber que nem sempre conseguirei afinal (por mais que queria) não escrevo unicamente para mim.

Em outras palavras, a vida em si é muito pesada para não poder usufruir de um mínimo de liberdade ao menos enquanto escrevo que é o que mais amo fazer.

Por conta dessas regras por muito tempo me senti inapto e incapaz de mostrar quem sou ainda que tenha meus rompantes de insegurança em alguns momentos.

E hoje no estilo e na maneira que eu quiser eu continuo tentando ser eu mesmo.

Algum dia poderei ser mesmo?

E você? Quando você se sente realmente livre?

 

Imagem: Fábio Pires (eu mesmo!)


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Fabio Pires é o cara risonho da foto. Eu sou quem assina boa parte dos textos aqui publicados e quem escolhe os assinados por outros escritores. Sou carioca, tenho um livro publicado e vários outros na cabeça, sou baixista da banda de rock Diabo Verde, ranzinza, ácido, formado em Letras, graduado em filosofia de botequim, escrevo poesia, mas não me acho poeta e desde 1976 venho tentando fazer a coisa certa, mesmo sem saber muito bem diferenciar o certo do errado.