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A negligenciada luz no caos – Parte 1
Croniquetas e Papo furado

A negligenciada luz no caos – Parte 1

Tempo de leitura: 3 minutos
Esta é a primeira parte de uma história real e que com certeza acontece em toda parte.
Talvez com mais detalhes que eu tenha conseguido agregar ou com mais ficção que mereça.
Em todas elas com a negligenciada luz no caos que dificilmente enxergamos

 

Por vezes se via deitado, praticamente imóvel, como se estivesse amarrado em sua velha cama de solteiro no meio da noite, completamente imerso em nicotina e alcatrão, onde o que mais incomodava era o barulho contínuo das pás do velho ventilador de teto que teimosamente circulava.

Tentava não imaginar por onde todos andavam que já não estavam mais ao seu lado como quando era mais jovem.

A imagem repetitiva e modorrenta da solidão o incomodava principalmente quando chegava do serviço.

E chegava no começo da madrugada em que não enxergava nada e nem ninguém que amenizasse seu isolamento.

Pensamentos contraditórios atravessavam seu já parco equilíbrio e por vezes pensava em sumir, desaparecer do mapa.

Mas como se ele mesmo já não se via mais ali?

 

O escapismo

 

Não ficou mais de dez minutos em seu diminuto e claustrofóbico quitinete chegado do batente.

Entrou vagarosamente em seu velho carro e parou em um botequim relativamente distante de sua casa onde dificilmente seria reconhecido.

Sentou-se sozinho em uma cadeira de ferro destas que carregam na ferrugem a marca de alguma cerveja vagabunda, tão vagabunda quanto o bar de estrutura pobre situado em um casarão antigo e depredado pelo tempo e que nesta ocasião o servia com perfeição.

A segunda-feira que já se transformara em terça explicava o pouco movimento na rua.

E ali se sentiu confortável para pensar em tudo que fez de errado e porque nunca conseguia se corrigir.

O silêncio no ambiente só era cortado pelo estalar seco que as bolas de sinuca emitiam no calado jogo entre dois senhores aparentando sessenta anos.

Estes que apenas se olhavam discretamente a cada jogada bem sucedida como se não precisassem mais do que isso para continuar a peleja.

Por um momento Sebastião percebeu que o silêncio sempre foi o melhor remédio para seus males e usando do mesmo sossego que imperava no velho boteco apontou para a parede decorada com uma vasta lista de alcatrões, cachaças e vodcas de segunda categoria.

Pediu a primeira garrafa de vodca vagabunda que avistou.

Não queria estar ali, pensou em beber para que talvez, pudesse dispersar os pensamentos dúbios e por vezes assustadores que o cercavam.

O primeiro gole de vodca pura desceu rasgando seu cérebro e fígado, mesmo assim continuou.

Esboçou um sorriso idiota, pois se achou como um caubói de filme faroeste espaguete bebericando em algum pub perdido em uma estrada empoeirada enquanto seu pangaré bebia um pouco de água e descansava da longa viagem.

Uma autêntica segunda sem lei.

Devia ser algum efeito da terceira dose seguida que bombardeava seus pensamentos e maltratava seu já combalido fígado e que o fez tirar da sua velha Sansonite uma caneta e em um pequeno guardanapo onde escreveu:

 

“Vou para não mais voltar e desejo ser cremado e que minhas cinzas sejam jogadas em algum jardim ou plantação para que como adubo possa ser útil pelo menos no final”.

Ass. “Tião Butuca”

 

Era Sebastião, mas provavelmente ninguém aguardava seu retorno ou mesmo guardava seu nome.

Dobrou e guardou sua despedida calmamente no bolso direito da surrada camisa de alpaca que usava.

O efeito contínuo da bebida o dava coragem para fazer justamente o que queria:

 

Fugir em pensamento, ainda que apenas em pensamento.

 

Mais da metade da garrafa da vodca muxibenta já tinha descido goela abaixo.

E como consequência suava mais do que seu habitual o que o lembrou que apesar de ser outono não batia uma simples brisa em seu rosto.

Tinha medo de tudo, uma complexa herança familiar, mas tinha medo principalmente de si mesmo.

 

Continua…
Foto por Lucille Borderioux on Unsplash.

Gostaria muito de saber o que você achou!

 

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