Crônica do copo cheio e vazio

Crônica do copo cheio e vazio

Crônica em um dia de percepção da sua própria realidade.
Ou da sua, quem sabe?

 

Chegou ao ponto de ônibus debaixo de uma garoa fina bem diferente daquela chuvarada que inundou a cidade uma semana antes.

Essa era uma daquelas chuvinhas que só servem pra irritar depois de um dia inteiro de trabalho.

Isso sem falar que por estas bandas o trânsito para ao menor movimento das nuvens e de fato não precisa de motivo algum para o trânsito empacar.

“Grandes merdas morar na cidade…” Resmungou para dentro.

Em dias assim sempre se imaginava morando na roça e instantes para estes refugos de imaginação ele tinha de sobra já que esperaria ainda muito tempo pelo coletivo.

E sabidamente trocaria o barulho dos carros pelo cricrilar dos grilos.

 

Cansado estava do dia de trabalho.

Cansado estava de ser apenas mais um número na sua empresa.

Cansado estava da certeza de que só num ato de loucura poderia mudar algo na sua rotina.

E havia inclusive definido loucura como ato não compreendido e invejado por aqueles que não tinham coragem em fazê-lo.

Ou seja, ele.

Nesse dia se auto proclamou filósofo de ponto de ônibus.

 

Imaginou como seria se ganhasse na loteria.

Certamente ajudaria aqueles que se mantiveram próximos durante a míngua e em seguida sumiria do mapa.

Sairia por aí para descobrir o mundo, conhecer pessoas novas e poderia enfim comer sem a preocupação do dinheiro durar o mês inteiro.

Iria provar tudo.

Tudo que seus quarenta anos de salário mínimo não permitira e decerto não precisaria perder este tempo todo no trânsito.

Ou esperando pela condução ou apenas esperando.

Queria aprender na prática o sentido do verbo VIVER.

 

Finalmente chegou o lotação uns 45 minutos depois.

Conseguiu ir sentado por já se tratar de nove da noite e poucos ainda voltavam pra casa.

Se sentou no assento da janela e passou a observar os carros desfocados pela chuva enquanto procurava entender como que ele que trabalhava tanto não tinha dinheiro suficiente para comprar um.

Nenhum velhinho sequer.

Isso sem falar em toda insanidade de gastos que são impostos ao adquirir um.

Tentou divagar sobre como seria não ter que pagar nada ao governo.

Deu uma risada de canto de boca, balançou a cabeça negativamente e voltou seu olhar para janela.

 

Com os olhos cerrados procurou desanimadamente por pensamentos bons.

Se esforçou bastante, entretanto estava tão esgotado que decide finalmente fechar completamente os olhos para tentar acalmar seus pensamentos e esfriar a cabeça.

Se agarra a sua mochila surrada e assim que abaixa as pálpebras um já veterano vendedor de doces entra no ônibus:

“Desculpe incomodar o silêncio da sua viagem…”. 

Sem mexer os lábios responde a ele não se preocupar.

Isso porque na sua cabeça estava um fuzuê que ele não conseguia concatenar muitos raciocínios de maneira lógica.

E que tipo de justiça nos rege em que faz este senhor a esta hora ainda trabalhar?

 

Entre um solavanco e outro proporcionado pelo estado precário do asfalto se imaginava longe dali.

E se recordou da brisa do mar que sempre o acalmava e o fazia voltar à infância ao passo que se percebeu procurando por pequenas compensações quando estava se sentindo sozinho como naquele momento. 

Ora um vinho barato em promoção no mercado, a cervejada com colegas de trabalho ou a vitória do seu time no domingo.

E agora não sabia lidar com as incertezas cada vez maiores da meia idade que sempre fingiu não existir.

Sendo que estava também cansado de ouvir sua mulher dizendo que ele era ingrato e que deveria enxergar as coisas boas que aconteciam em sua vida.

Que tudo se limitava ao copo cheio ou vazio.

Só não sabia como enxergar aquele copo.

Se cheio por que não conseguia degustar seu conteúdo?

Se vazio como nunca conseguiu enche-lo?

 


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Fabio Pires é o cara risonho da foto. Eu sou quem assina boa parte dos textos aqui publicados e quem escolhe os assinados por outros escritores. Sou carioca, tenho um livro publicado e vários outros na cabeça, sou baixista da banda de rock Diabo Verde, ranzinza, ácido, formado em Letras, graduado em filosofia de botequim, escrevo poesia, mas não me acho poeta e desde 1976 venho tentando fazer a coisa certa, mesmo sem saber muito bem diferenciar o certo do errado.