Quieto, pensativo e de boca fechada, naquele dia eu só almejava almoçar sozinho no refeitório da empresa, mas justamente nestes momentos não consigo...

De boca fechada

Tempo de leitura: 2 minutos
Quieto e de boca fechada
Eu desejava apenas almoçar sozinho naquele dia

 

Naquele dia decidi me sentar sozinho com a intenção de não chamar atenção alguma, tanto que nem o barulho da cadeira arrastando eu produzi. 

Em dias assim prefiro comer sozinho e ouvir o silêncio que emito dos meus pensamento, porém no restaurante da firma sozinho não significa efetivamente que você consiga ficar sozinho.

Até que eu estava indo bem no meu intuito quando infelizmente levantei a cabeça e olhei para mesa em frente, onde um sujeito cismava em falar continuamente.

O problema é que ele enquanto falava também mastigava e a sua comida decididamente me olhava.

E eu não conseguia parar de olhar!

Apenas desejava que ele se calasse embora a mesa continuasse alheia a sua falta de modos.

Inacreditavelmente todos pareciam acostumados com seu hábito que me enojava.

Para piorar o assunto apareceu aos meus ouvidos, visto que ele também tinha a intenção de fazer valer sua opinião em voz alta.

 

“A Dilma é uma m…” e lá ia ele vociferar seu ódio

A minha refeição descia lentamente como venho tentando há anos, muito também porque me esforçava para não olhar para sua boca sempre cheia de comida durante seu discurso.

O assunto na mesa dele já havia mudado e eu não conseguia me desvencilhar desta imagem grotesca.

“Esse técnico da seleção é um…” brandava ele entre uma garfada e outra.

“Ela também pediu para ser estuprada, né?” vociferava ele enquanto seguia com seu festival de impropérios.

Eu já tinha me perdido nos assuntos que mudavam com intensa velocidade.

Quando caí em mim, percebi que o que realmente deveria me incomodar não era a sua refeição à mostra por entre os dentes, mas sim ele ser o retrato fiel da maioria dos que me cercam.

 

Que para tudo tem um opinião, mesmo sem se informar sobre.
Mesmo que ninguém tenha perguntado coisa alguma.
Mesmo sem se colocar no lugar do criticado.

 

E perceber que eu também fui assim e que sinto uma gigantesca vergonha quando olho para trás. 

Criticar por criticar ou apenas para amenizar algum tipo de frustração por não conseguir ser nada além do que é.

Consegui perceber ao final da minha refeição que o que verdadeiramente me incomodou foi ouvir aquilo que não imaginava poder ouvir de uma pessoa em pleno século XXI.

Ouvi e não desejei ferrenhamente ser surdo, como de hábito, apenas desejei fortemente que pessoas assim apenas não existissem.

E que eu tenha consciência plena para nunca mais ser assim.

E que saiba me manter de boca fechada.

 

Imagens por Free Images.


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Fabio Pires é o cara risonho da foto. Eu sou quem assina boa parte dos textos aqui publicados e quem escolhe os assinados por outros escritores. Sou carioca, tenho um livro publicado e vários outros na cabeça, sou baixista de rock, ranzinza, ácido, formado em Letras, graduado em filosofia de botequim, escrevo poesia, mas não me acho poeta e desde 1976 venho tentando fazer a coisa certa, mesmo sem saber muito bem diferenciar o certo do errado.