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Deus deve ter tirado um ano sabático

Deus deve ter tirado um ano sabático

Esse ano realmente está tão estranho que sinto até vergonha de ter reclamado de 2019. E mais, sinto até saudades de um ano que estava longe de ser razoável! Mas absolutamente nada explica um ano como 2020, e olha que me esforcei em me manter otimista. Não vi uma vidente, um babalorixá ou sequer um

Tempo de Leitura: 3 minutos

Esse ano realmente está tão estranho que sinto até vergonha de ter reclamado de 2019.

E mais, sinto até saudades de um ano que estava longe de ser razoável! Mas absolutamente nada explica um ano como 2020, e olha que me esforcei em me manter otimista. Não vi uma vidente, um babalorixá ou sequer um clone da Mãe Dinah falando que seria algo parecido com que está acontecendo.

Parece até que Deus tirou um ano sabático e até consigo imaginar a cena:
31 de dezembro de 2019, logo depois do banho de Cidra Cereser e de uns salgadinhos gordurosos, o Homem anuncia:

– Pedrão, tô pensando em descansar e tirar uma folga…

– Relaxe senhor, dia primeiro tá tudo dominado e dá pra tirar um descanso!

– Hahaha! Vou tirar um ano de folga, Pedrão! Um ano sabático para recarregar as baterias, assistir a uns filmes água com açúcar, dar uns mergulhos em alguma praia que não tenham poluído ainda…

– Um ano? O senhor se lembra da última vez que se ausentou…

– Porra, Pedrão, tu fica me lembrando disso o tempo todo! Eu sei que foi na Segunda Guerra e você sabe que eu estava deprimido…

– O senhor ficou fora por 6 anos!

– Não estava lidando muito bem com aquilo tudo… Seja compreensivo, homem! E quando voltei taquei fogo no cabaré e organizei a bagunça!

São Pedro suando em bicas e o Homem decidido continua:

– Já até peguei umas dicas com a Gloria Maria, vou descansar!

– O senhor não acha perigoso se ausentar quando sabemos que está vindo uma pandemia?

– Essa é a merda de saber das paradas com antecedência, por isso que nem quis ver o restante do cronograma de 2020! E tem mais, você sabe que vai demorar para descobrirem a vacina, basta que usem a máscara e que sosseguem o rabo em casa!
– E se não quiserem usar a bendita máscara e nem ficarem em casa, senhor?

– Quer que eu faça o quê? Que usem o livre-arbítrio, vão só confirmar Darwin e segue o baile!

– Mas senhor, vai ter tanto morto que vão engarrafar a entrada do céu!

– Pedrão, você já não deveria ser tão ingênuo assim! Lembre que uma boa parte vai descer, e não subir!

Sem muitos argumentos, São Pedro começou a apelar:

– Senhor, e se eles decidirem tacar fogo e a matar mais índios na Amazônia? Se eles começarem a espalhar “curas milagrosas” para a pandemia? E se começarem a matar pretos e pobres asfixiados e daí surgirem ondas de protestos? E se eles não se prepararem para a época das chuvas?

– Isso tudo eles já fazem comigo aqui de serviço, Pedrão. E chuva é sua área, você resolve!
– E se tiver uma chuva de gafanhotos gigantes?

– Já estão acostumados, já usei essa antes! Tá faltando inspiração para o pessoal do roteiro, Pedro?

– E se por acaso tiver uma explosão de nitrato de amônia no Oriente Médio?

– Explosão no Oriente? Boring…

– Se tivermos aparições de OVNIS em grande número?

– Isso é coisa do estagiário que anda brincando com a minha caneta luminosa de novo?

Apavorado, porque sabia o que vinha pela frente, São Pedro continuava a metralhar:
– E o que eu faço se tiver motim de policiais?

– Pedro, você sabe que isso não é nossa responsabilidade…

– E se, por acaso, começarem a despejar latinhas de refrigerante nos rios e lagos?

– Pedro, aposto que tem alguém responsável por isso por aqui…

– Digamos que, sem querer, uma pastora mande matar o marido que na verdade era seu filho adotivo e ex-namorado da sua filha biológica?

– Gzuis! O pessoal do roteiro anda se drogando? Quem diabos ia escrever essa mistura de Tarantino com Scorsese?

São Pedro continua já abraçado ao desespero:

– E como eu procedo se grupos antifascistas forem investigados por fascistas, senhor?

– Eita, agora capricharam! Vocês andaram assistindo Black Mirror de novo! Esse negócio de distopia anda caducando o quengo de vocês!

– E que diabos eu farei se aquela besta-fera que elegeram no Brasil quiser bater em jornalistas, criar um gabinete do ódio, fabricar o caos na pandemia e ainda dizer que segue o Senhor?

– Porra Pedrão! Que inferno! Vou pedir ajuda pro Wagner Moura e arranjar alguém para assumir isso aqui como o Antônio Fagundes fez. Tudo eu!

Esta crônica faz parte do livro Flores Marginais em um Jardim Sujo.

Foto e arte do grande Diego Padilha.


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