728 x 90
Tempo de Leitura: 2 minutos

Distorcida e crua

Distorcida e crua

Apenas caminhava despreocupadamente pela areia da praia. Fazendo questão de deixar que cada grão passeasse por entre seus dedos e que levasse qualquer resquício da cidade grande para trás. Desviava das conchas e pedrinhas que seguem as ondas até ali serem depositadas. O cheiro de peixe o alegrava assim como a leveza no andar. Desejava

Tempo de Leitura: 2 minutos

Apenas caminhava despreocupadamente pela areia da praia.

Fazendo questão de deixar que cada grão passeasse por entre seus dedos e que levasse qualquer resquício da cidade grande para trás.
Desviava das conchas e pedrinhas que seguem as ondas até ali serem depositadas.
O cheiro de peixe o alegrava assim como a leveza no andar.
Desejava o vento forte no rosto bagunçando os cabelos e deixando um leve sabor salgado de maresia em seus lábios.
Talvez até ressecassem e não se importava mais.
Almejava por ouvir o insistente sotaque portenho com menos frequência e menos verborragia.
Pensava em ser mais um que decidiu sair da fila e tomou outro rumo.
Imaginou que ali qualquer palavra rimaria com destino.

Se viu perambulando naquele final de tarde em busca de si mesmo.
Aquele tal mesmo que ele jurava conhecer, mas a cada dia o surpreendia mais.
Não se reconhecia mais.
E nem queria isso.

Não se almejava mais.
Seu umbigo não era mais o centro do universo.

Procurava apenas ordenar as palavras e os pensamentos, mas insistentemente e inconscientemente os embaralhava freneticamente como um crupiê em uma mesa de cassino.

Sabia que caminho deveria seguir, mas por muito tempo não angariara confiança necessária para pôr em prática.
Nem tinha ideia de por onde começar.
Certa vez se pegou cantando o fácil é o certo e assim o fez.
Simplificou o complicado.
Precisava da simplicidade das três notas básicas do punk para compor sua própria sinfonia.
Distorcida e crua.
Sem muita definição.
Direto e seco como um soco no rosto.
Sem firulas ou partituras como em um despejar contínuo de ódios e incompreensões.

Que não podiam durar mais que dois minutos.
Estes que bastavam como unidades de medida do tempo e que sempre o fazia correr para o espelho.
E quando finalmente se observou (ufa!) lá estava ele na porta do forte implorando para entrar.
A seriedade não fazia mais sentido e abaixar a cabeça não era mais um problema.

Esmurrou uma. Esmurrou duas. Esmurrou três vezes.
E só conseguiu entrar quando finalmente achou seu reflexo naquele espelho velho, rachado e esverdeado nas beiradas.

Se conseguia se enxergar nele conseguiria se enxergaria em qualquer lugar.
Limpou cuidadosamente os pés no capacho gasto, deixando algumas lembranças para trás e foi.
Para não mais voltar.


Nos siga também no Facebook e no Instagram!

Sugestões de Leitura

Vale a Leitura!

Descomplica pós