E me percebo fingindo ser adulto

E me percebo fingindo ser adulto

Como definir esta passagem?
 Quando você se percebeu adulto?

 

Afinal o que é ser adulto?

É repetir exaustivamente que “na minha época era tudo melhor”?

Seria viver exclusivamente desse saudosismo vazio e frio?

Passei a ser adulto quando passei a calar meus sonhos até virarem tolices infantis?

Ou quando soltei a criança que havia em mim no vendaval?

Ou por, caladamente e finalmente, entender que nada disso faz sentido? 

 

O que é ser adulto?

Quem sabe seja se preocupar com o futuro mesmo sabendo que ele chega a cada segundo?

E ainda que viva correndo contra o relógio reclame de falta de tempo?

O que é se tornar adulto?

Seria ouvir músicas de gente grande?                                                 

Abandonar seu gosto musical e ouvir apenas as “músicas do momento”?

 

Há algum ritual que determine esta passagem?

Há algum sino que toque quando nos tornamos responsáveis por nós mesmos?

Quando você se percebeu sem alguém para passar mertiolate nos seus machucados?

Talvez seja se sentir engasgado por ter tanto a dizer e ainda assim e preferir entalar com suas convicções abandonadas?

E agir assim por se enxergar maduro, responsável, ajuizado, sensato,

ponderado, prudente, cauteloso, refletido, racional, vivido, experiente,

equilibrado e amadurecido?

 

Afinal alguém me diga o que pode ser definido como adulto?

Há algum diploma que nos defina assim?

Ou a pilha de contas já basta?

O peso nas costas ou o sorriso forçado?

Ou, quem sabe, seja o simples fato de ter sua carteira de trabalho assinada?

 

O que de fato é se tornar crescido?

Algo que berramos na fila do recreio?

Ou as rugas nos dão este título?

Vamos brincar de ser adulto?

Brincamos de ser adultos e como consequência, passamos a infância almejando crescer, mas me diga com sinceridade, como aguentamos uma vida inteira querendo voltar ao útero?

 

Foto por Free Images.

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Fabio Pires é o cara risonho da foto. Eu sou quem assina boa parte dos textos aqui publicados e quem escolhe os assinados por outros escritores. Sou carioca, tenho um livro publicado e vários outros na cabeça, sou baixista da banda de rock Diabo Verde, ranzinza, ácido, formado em Letras, graduado em filosofia de botequim, escrevo poesia, mas não me acho poeta e desde 1976 venho tentando fazer a coisa certa, mesmo sem saber muito bem diferenciar o certo do errado.