Feliz em um mar de livros

Feliz em um mar de livros

Tempo de leitura: 3 minutos
Minha infância e adolescência foi passada em um pequeno mar de livros.
Me lembro com exatidão dos meus sete ou oito anos em que buscava o que ler na casa de meus pais

 

E eu não me importava se era o jornal de domingo inteiro (inclusive os classificados!), alguma revista de fofocas perdida na sala e todo e qualquer livro porque se estava dando sopa eu pegava para folhear.

E por alguma razão sempre havia algo espalhado pela casa e por  isso digo que tive  sorte de estar em um pequeno mar de livros e consequentemente minha vontade foi estimulada e aguçada.

 

Lembro de ler por várias vezes “Eu, Christiane F., 13 anos, drogada e prostituída”

E de me impressionar em todas elas com a descrição absolutamente detalhada da decadência de Berlim e também dos seus personagens Detlef e Christiane.

Os detalhes da fragilidade física deles como consequência do abuso de heroína assim como todo o processo para conseguir a droga.

Na verdade, a sua busca desesperada.

E digo que provavelmente boa parte do meu medo cuidado com drogas (ilícitas) tenha nascido deste livro.

Acho que ainda tenho o mesmo exemplar cheio de remendos por aqui em algum lugar.

 

Também me recordo de folhear “Nem Marx Nem Jesus” de Revel

Que tinha uma frase na contracapa que só veio fazer algum sentido muitos anos depois:

Os costumes se transformam, os negros se revoltam, as mulheres lutam por seus direitos, os jovens se recusam a aceitar a ordem estabelecida, cresce o desejo de igualdade, o desprezo pela política com finalidades de dominação internacional, cresce a preocupação pela natureza ameaçada pela técnica. É a revolução que já começou, para mudar a face do Homem e da Terra.

E diga-se, parece que ele escreveu este texto ontem.

 

Tive o sutil impacto deixado pelo “Pequeno Príncipe”.

E que por algum tempo me fez questionar porquê diabos este livro era tido como obrigatório.

Isso porque na minha cabeça infantil não fazia sentido algum um livro cheio de desenhos ser algo tão importante.

Para mim que adorava estudar sobre histórias de Segunda Guerra era muito mais interessante saber que seu autor foi piloto da Força Aérea Francesa.

E que foi alvejado em uma missão de reconhecimento!

E que nunca acharam seu corpo!

Anos mais tarde percebi o quanto este livro me acolheu na passagem para vida adulta.

E que hoje o tanto que me avisou e auxiliou na minha tentativa frustrada de achar a criança que fui calando aos poucos dentro de mim.

E agora com um pouco mais de consciência o entendo melhor.

E também por me proporcionar pensamentos inacreditavelmente atuais e que me acertam no orgulho em vários momentos como:

 

As pessoas são solitárias porque constroem muros aos invés de pontes.”

Ou

É bem mais difícil julgar a si mesmo que julgar os outros.”

 

Tinha também “O poderoso chefão”

E este entra naquele rol seleto de livros que quando transformados em filme se equivalem na riqueza de detalhes tanto que até hoje encontro em um as minucias colocadas no outro.

A violência, seu complexo senso de errado e certo assim como o de lealdade e traição.

E como Mario Puzo e Coppola foram soberbos em realçar os momentos de maior tensão na trama.

Resumindo?

Uma autêntica Obra-Prima.

Com letra maiúscula.

 

Lembro nitidamente da porrada que tomei quando terminei de ler o “Diário de Anne Frank” pela primeira vez.

E digo com certeza que foi este o que mais me marcou.

E que muitas e muitas vezes imaginei como seria viver escondido por pouco mais de dois anos, naquelas condições e por aqueles “motivos”.

A injustiça e a minha incompreensão infantil pela existência do preconceito.

“Como Deus pôde criar algo assim?” me perguntei seguidamente.

Ele nunca me explicou.

E hoje vejo que evoluímos muito pouco neste campo, na verdade parece que regredimos.

E lendo este livro achei no caminho da escrita uma saída para o que sentia e não conseguia identificar.

Por isso mesmo tão jovem comecei a escrever em um diário o que provavelmente estimulou mais ainda meu gosto pela literatura.

 

Concluo sentindo ainda hoje e nitidamente o cheiro do papel

E neste aroma se materializam várias nuances da vida em histórias que vivenciei através das experiências de seus autores.

E que hoje finalmente me perco entre aqueles que já li muitas vezes.

Assim como aqueles que li apenas uma vez.

Tanto quanto aqueles que folheei e pacientemente estão aguardando sua vez.

E certamente eles terão sua vez.

E ainda hoje me acho no meu mar de livros e emoções.

 

Imagem por freepik.com

E qual livro te marcou?

 

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Fabio Pires é o cara risonho da foto. Eu sou quem assina boa parte dos textos aqui publicados e quem escolhe os assinados por outros escritores. Sou carioca, tenho um livro publicado e vários outros na cabeça, sou baixista da banda de rock Diabo Verde, ranzinza, ácido, formado em Letras, graduado em filosofia de botequim, escrevo poesia, mas não me acho poeta e desde 1976 venho tentando fazer a coisa certa, mesmo sem saber muito bem diferenciar o certo do errado.