Há dois tipos de palavras as proparoxítonas e o resto por Eduardo Affonso

Há dois tipos de palavras: as proparoxítonas e o resto por Eduardo Affonso

Tempo de leitura: 2 minutos
Adoraria ter escrito este texto fantástico!

 

As proparoxítonas são o ápice da cadeia alimentar do léxico

Estão para as outras palavras assim como os mamíferos para os artrópodes.

As palavras mais pernósticas são sempre proparoxítonas tanto das mais lânguidas às mais lúgubres quanto das anônimas às célebres.

Se o idioma fosse um espetáculo permaneceriam longe do público, fingindo que fogem dos fotógrafos e se achando o máximo.

Para pronunciá-las, há que ter ânimo, falar com ímpeto – e, despóticas, ainda exigem acento na sílaba tônica!

 

Sob qualquer ângulo, a proparoxítona tem mais crédito.

É inequívoca a diferença entre o arruaceiro e o vândalo

O inclinado e o íngreme
O irregular e o áspero
O grosso e o ríspido
O brejo e o pântano
O quieto e o tímido.

 

Uma coisa é estar na ponta – outra, no vértice
Uma coisa é estar no topo – outra, no ápice
Uma coisa é ser fedido – outra é ser fétido.

É fácil ser valente, mas é árduo ser intrépido
Ser artesão não é nada, perto de ser artífice
Legal ser eleito Papa, mas bom mesmo é ser Pontífice.

(Este último parágrafo contém algo raríssimo: proparoxítonas que rimam, porque elas se acham únicas, exóticas, esdrúxulas e são figuras mais antipáticas da gramática.)

 

Quer causar um impacto insólito?

Elogie com proparoxítonas
É como se o elogio tivesse mais mérito, tocasse no mais íntimo
O sujeito pode ser bom, competente, talentoso, inventivo – mas não há nada como ser considerado ótimo, magnífico, esplêndido.
Da mesma forma, errar é humano, mas épico mesmo é cometer um equívoco.

 

Escapar sem maiores traumas é escapar ileso – tem que ter classe pra escapar incólume.

O que você não conhece é só desconhecido, mas o que você não tem a mínima ideia do que seja – aí já é uma incógnita.

Ao centro qualquer um chega – poucos chegam ao âmago.

O desejo de ser uma proparoxítona é tão atávico que mesmo os vocábulos mais básicos têm o privilégio (efêmero) de pertencer a esse círculo do vernáculo – e são chamados de oxítonos e paroxítonos.

Não é o cúmulo?

 


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Fabio Pires é o cara risonho da foto. Eu sou quem assina boa parte dos textos aqui publicados e quem escolhe os assinados por outros escritores. Sou carioca, tenho um livro publicado e vários outros na cabeça, sou baixista da banda de rock Diabo Verde, ranzinza, ácido, formado em Letras, graduado em filosofia de botequim, escrevo poesia, mas não me acho poeta e desde 1976 venho tentando fazer a coisa certa, mesmo sem saber muito bem diferenciar o certo do errado.