728 x 90
Tempo de Leitura: 3 minutos

Herói, pelo quê LUTO?

Herói, pelo quê LUTO?

Só o fim nos iguala. E isso acontece justamente por vermos a vida da maneira que desejamos. Uma antítese, talvez. Ou um exercício de lógica discursiva. Já notou, por exemplo, que todo mundo que envelhece ou morre vira santo? Pois é. Logo neste ano, em que sentimos que Thanatos parece ter resolvido trabalhar mais do

Tempo de Leitura: 3 minutos

Só o fim nos iguala.

E isso acontece justamente por vermos a vida da maneira que desejamos.
Uma antítese, talvez. Ou um exercício de lógica discursiva.
Já notou, por exemplo, que todo mundo que envelhece ou morre vira santo?
Pois é.
Logo neste ano, em que sentimos que Thanatos parece ter resolvido trabalhar mais do que nunca, e temos precisado lidar com mortes de familiares, conhecidos, celebridades e até mesmo, temos parado para pensar na nossa própria finitude, esse pensamento tem me cercado quase diariamente.
Assim como você, caro leitor, perdi amigos e familiares, este ano. Todos para o Coronavírus ( aquela gripezinha, lembra?).
Sinto, no fundo do coração, que algumas pessoas não deveriam morrer jamais, e que a falta delas faz do mundo um lugar tão mais difícil que a elas deveria ser dado um crédito extra de vida.
Outras pessoas, por outro lado, quando vão, vão tarde. E não existe sentimento de amor ao próximo que limpe meu pensamento deste sentimento tão intimamente humano:

“Não vai fazer falta nenhuma!”.

 

Mas expressar isso causa algum choque nas pessoas ao redor.

E eu nem sei se chamaria isso de hipocrisia.
A verdade é que nos compadecemos da morte e da doença alheia – ainda bem – por sermos humanos. E mesmo em um nível muito primitivo, somos capazes de nos colocarmos no lugar dos outros.
E é aí que entra uma questão preponderante: Eu e você somos e sempre seremos os heróis de nossas próprias histórias.
Ao ilustrar o homem atado a uma corda em que se vê dois extremos, Zaratustra, talvez devesse ter sido menos pretensioso; Deveria, creio, ter ponderado entre ser o Herói que cada um vê em si, e os seres medíocres que de fato somos.
A saga humana nunca foi uma luta travada pelo animal em nós e o Übermensch, mas entre o compreender que formamos, do primeiro fôlego ao túmulo, toda uma ideia de que somos os protagonistas de uma vida em que as pessoas nos olham, nos admiram ou nos odeiam por inveja. E, por consequência, só podemos estar certos com relação a todas as coisas, fazendo tudo com um caráter heroico.
Essa projeção tão polida e romântica que temos de nós é, com certeza, um belo combustível para que saibamos florear com destreza a imagem daqueles que, perto de nós, se vão.
Amenizamos neles as características ruins porque, no fundo, desejamos que nos façam o mesmo. É um investimento de baixo risco, pouco custo e alto rendimento, já que nosso ego é tão central em nossas vidas, mesmo se já não há vida.

 

Contudo, vale lembrar sempre que todos nós já fomos e ainda seremos – não uma, mas inúmeras vezes – os vilões mais terríveis da história de alguém.

Para pelo menos um ser humano, você já foi uma pessoa terrível, venenosa, tóxica, sem coração, cruel, mentirosa.
E tuas vítimas,  leitores da tua trajetória, que te veem como antagonistas, dirão “já vai tarde” quando já não estiver aqui. Mas isso, certamente dirão a si mesmos, ou em lugar de convívio com pessoas íntimas.
Aos outros, dirão que sentem muito, que a vida é triste, que a morte é difícil e que a situação é trágica. Eles trajarão preto, e você passará à categoria de Santo.
Hipocrisia?
Não.
Temor de não agir como o herói da própria história – puro, irrepreensível, reto, iníquo – e preocupação com aquele investimento de baixo custo para quando a hora da própria partida chegar.
O fim nos iguala, e Zaratustra talvez seja muito mais sobre os heróis que montamos fantasiosamente do que as evoluções que podemos alcançar.

 


Nos siga também no Facebook e no Instagram!

Deixe seu comentário

Seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios estão marcados com *

Sugestões de Leitura

Vale a Leitura!

Descomplica pós