Morte em vida

Morte em vida

Vez por outra viajo para lugares que nunca estive, vivo realidades que nunca foram minhas, experimento momentos que nunca vivenciei.
E ainda assim consigo perceber como seria o que não vi.

 

A tristeza e a frustração sempre os acompanharam e como resultado não sabiam agir ou mesmo viver de outra maneira.

De fato, não conheciam outra vida e esse estado permanente os levava a exaustão não percebida.

Pesados e densos. Semblantes sempre carregados pela tensão.

Sempre com um piano nas costas mesmo sem saber executar uma única nota e sem mesmo ter alguma música em suas vidas.

Sem expressão ou mesmo vestígio de algum amanhã.

Um dia por vez.

O jardim florido e ornamentado que um dia ela imaginara como palco para a vida colorida que fantasiou quando criança agora se via em escombros de uma guerra há muito já perdida e que para ela nunca findava.

Todo dia uma batalha nova.

Isso a cansava já que nunca enxergara um fim para isso.

Já havia pensado algumas vezes no chumbinho como saída, mesmo que faltasse coragem.

O choro estridente dos pequenos pedindo água e comida era o que mais a incomodava.

A dor de estômago causada pela falta de uso já não a atormentava, mas o choro dos pequenos acabava com o restante de suas forças.

 

Já ele via sua existência como uma infindável via crúcis daquelas que a igreja mostra nos autos de Natal em que a cruz era o peso por se sentir um completo fracasso.

Sendo que o flagelo de sobreviver era o caminho que tinha que seguir.

Nunca soubera o que viera primeiro, a dúvida ou a certeza.

E nessa sequência do que um dia alguém apelidou de vida eles seguiam ou eram conduzidos, mesmo sem se dar conta, para o mesmo fim destinado ao rebanho do dono da fazenda.

Felicidade, para ele, era raspa de biscoito de maisena molhado no café sem açúcar.

Que ele ansiava todo final de tarde com a textura e a doçura do biscoito se desmanchando no contato com sua língua áspera e seca.

Aquele era seu orgasmo diário.

Gostava da ansiedade que sentia pelo biscoito e pelo café ralo distribuído pelos capatazes da fazenda no final do serviço.

Fazenda esta tão grande que se perdia de vista, pra todo lado que se olhava se enxergava terras pertencentes ao “Coroné”.

Ele que se fazia passar como dono do mundo.

Se não do mundo, mas de todas as terras de Poço Redondo, o que já era o mundo todo que eles conheciam.

Muito mais do que podia existir e muito além do que sua vista turva pela fome podia alcançar.

Não sabiam o que existia por trás do horizonte e imaginavam que provavelmente ainda seriam terras pertencentes a ele.

Quando criança ele cruzava o chão árido o mais longe possível para testemunhar o que existia depois daquela linha.

Mas ela, a linha, sempre se mantinha distante.

Sempre se afastava e os mantinham, ele e seus seis irmãos, longe.

Achava seu vilarejo tão distante de tudo que nem o horizonte queria se aproximar deles.

 

O sol era quem nunca os abandonava.

Sempre lá. Forte e perturbadoramente insistente.

Sempre a matar o pouco dos cabritos que resistiam, a rarear a água que nunca chegava em quantidade suficiente, a criar mais dificuldade em manter a pequena horta e a manter seu tom de pele ressecada.

 

Já adulto tentava entender porque sempre apareciam uns engravatados prometendo água e comida a cada eleição sendo que eles nunca cumpriam.

Ele nunca votava mesmo, nem no candidato que o Coroné mandava.

Ia no posto, marcava o dedo no lugar da assinatura e fingia.

Assim como fingia estar vivo.

Ela, por sua vez, tentava imaginar como seria sua vida se tivesse subido naquele ônibus enferrujado que uma vez por semana sacolejando carregava boa parte dos seus conhecidos para o sul.

Mas com tanta fome sequer conseguia imaginar algo sobre sua sorte.

O pensamento turvo se misturava com a necessidade de ingerir algo.

Nem que fosse esperança.

 

Foto por Kant Smith.

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Fabio Pires é o cara risonho da foto. Eu sou quem assina boa parte dos textos aqui publicados e quem escolhe os assinados por outros escritores. Sou carioca, tenho um livro publicado e vários outros na cabeça, sou baixista da banda de rock Diabo Verde, ranzinza, ácido, formado em Letras, graduado em filosofia de botequim, escrevo poesia, mas não me acho poeta e desde 1976 venho tentando fazer a coisa certa, mesmo sem saber muito bem diferenciar o certo do errado.