Nu e de óculos

Nu e de óculos

Tempo de leitura: 2 minutos
Muitas vezes me questionavam sobre meus textos e seus significados e habitualmente por um tempo isso me incomodou.
Hoje as críticas chegam e não me atingem tanto, provavelmente porque hoje consiga identificar qual intenção a crítica tenha.
E daí que me sinto nu e de óculos

 

Por certas vezes fui questionado sobre meus textos.

Alguns queriam sempre saber se eram exclusivamente autobiográficos, se determinadas situações haviam ocorrido na realidade ou se eram meros despejos da minha imaginação.

Respondi que sim.

E que não.

E que na verdade uns sim, outros não e alguns talvez.

E daí percebi que, de fato, a graça está depositada em confundir ao se explicar.

E ao me explicar eu multiplico a confusão.

De fato a graça está em nunca determinar verdades únicas e largar esta bomba na mão do leitor.

 

Percebi que a arte não deve explicações e o significado da arte em si é o que transforma a relação criador-público interessante e única.

Afinal o eu acho que sei o que ele/ela quis dizer neste poema é o que secretamente une os dois lados neste cabo de guerra.

E daí a arte passa a ser a melhor maneira do ser humano expressar seus sentimentos e emoções e alguns de nós só conseguem se manifestar dessa maneira.

 

Prefiro insistir na dúvida entre ser Ricardo Reis ou ser Fernando Pessoa.

De ser carne ou de viver devaneios.

Ser um Carnaval ou uma Missa do Galo.

Ser e não ser.

 

A literatura, por exemplo, me parece ser como é a vida.

Ao mesmo tempo pode ser complicada e simples.

Profunda e superficial.

Seca e também úmida.

Em algumas vezes tudo ao mesmo tempo.

 

Tudo depende de como enxergamos determinados textos.

Eu, particularmente, ainda preciso de esforço para enxergar alguns ângulos diferentes do habitual.

Um pesado e grosso óculos fundo de garrafa com armação preta já me ajuda bastante.

Mesmo que em outras situações seja necessário o auxílio de um telescópio, tamanha a complexidade de certos autores.

  

O importante talvez seja nunca deixá-los sem uma interpretação.

E tento nunca abandoná-los mesmo que muitas vezes eu precise reler aquela maldita página mais de uma vez e mesmo que muitas vezes me sinta nu no meio da praça.

Até, quem sabe um dia, que não precisarei mais destes “óculos” e não me incomodarei mais em me sentir despido ao lê-los.

 

Foto por: Freepik

 Que autor deixou você sem chão ou nu depois de um texto?

 

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Fabio Pires é o cara risonho da foto. Eu sou quem assina boa parte dos textos aqui publicados e quem escolhe os assinados por outros escritores. Sou carioca, tenho um livro publicado e vários outros na cabeça, sou baixista da banda de rock Diabo Verde, ranzinza, ácido, formado em Letras, graduado em filosofia de botequim, escrevo poesia, mas não me acho poeta e desde 1976 venho tentando fazer a coisa certa, mesmo sem saber muito bem diferenciar o certo do errado.