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Nudes, charuto e Dona Gertrudes

Nudes, charuto e Dona Gertrudes

Criei um novo hábito saudável na pandemia! Eu acho saudável e basta. Todo dia, às oito da noite, bato panela pelado na varanda! É libertador, asseguro. Lógico que deixo a luz da varanda apagada. E se alguém conseguir me ver é bem provável que olhe umas duas ou três vezes, pois duvido que alguém possa

Tempo de Leitura: 2 minutos

Criei um novo hábito saudável na pandemia!
Eu acho saudável e basta.

Todo dia, às oito da noite, bato panela pelado na varanda! É libertador, asseguro. Lógico que deixo a luz da varanda apagada. E se alguém conseguir me ver é bem provável que olhe umas duas ou três vezes, pois duvido que alguém possa acreditar, de imediato, que exista um desequilibrado que bata panela pelado na varanda do segundo andar.
Pois bem, este sou eu. Tranquilo, de posse do meu charuto de marca duvidosa, e toda sexta-feira, também bem acompanhado de um generoso copo de gim tônica até a borda.
Como todos os dias se parecem, assumo que tenho bebido dia sim, dia não.

Exceto quando o noticiário está mais pesado, pois aí ignoro o que me resta de memória do calendário gregoriano e apaziguo o boletim com mais uma dose.

Mas voltando aos nudes pandêmicos, você insistente leitor poderia perguntar: Para quê, meu Deus? Para quê? E eu sorrateiramente responderia com minha cara de pau número um: Porque eu quero protestar pelado e trato todo o ato como um momento solene; aproveito o momento e me sento na cadeira, acendo meu charuto, bebo meu gim e fico por lá mesmo ouvindo de longe as desgraças do atual desgoverno no Jornal Nacional. Enquanto o Bonner chuta a macumba de lá, eu protesto de cá.

Pretendo fazer isso também no verão, procurando pela brisa refrescante que vai amenizar o insuportável calor carioca. Digo que acalma e relaxa em caso de estresse, e ainda dou tchauzinho para senhorinha que mora no terceiro andar do prédio em frente, que aqui chamarei de Dona Gertrudes, apesar de não fazer ideia alguma de seu nome.

Penso que Dona Gertrudes não deve enxergar bem, pois ela fica na janela observando. Acerta os óculos, coça os olhos, vai e volta umas 10 vezes procurando entender o que acontece. Eu finjo normalidade e sigo meu protesto. Só abandonei o panelaço para não chamar mais tanta atenção. Vai que filmam e colocam no YouTube? “Pelado, bêbado e paneleiro protesta na varanda”. E este seria o título menos problemático.

Olhando a Dona Gertrudes e seu andar devagar de quem já andou bastante nessa vida, me lembrei da minha avó, que sempre brincava com o fato de eu andar nu pelo apartamento em que morávamos. E isso independente da janela estar aberta ou fechada.
Quem quiser que olhe, tô nem aí! – falava sempre para ela, esperando as suas risadas gostosas que vinham em seguida, sempre tomando cuidado para a dentadura não pular. Saudades da sacana da minha avó.

Dona Gertrudes hoje fingiu que estava regando as plantas na varanda para tentar ver mais de perto. Regar plantas à noite é bandeira demais, Dona Gertrudes!
À noite, a visão não funciona muito bem e esta é a minha sorte.
Até pensei em fazer um protesto diurno para Dona Gertrudes, mas tenho um medo danado de que ela compre um binóculo.

Este texto é parte do livro Flores Marginais em um Jardim Sujo.


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