O inferno visto da janela – Parte 2

O inferno visto da janela – Parte 2

Continuação

 

Onde estou deitado é quente e parece que estou sendo atravessado por pregos e pelo que percebi minha mãe implora para que me atendam rapidamente. 
Atender rapidamente?
Pareço ver tudo e ao mesmo tempo sei que tenho meus olhos fechados.
Já sei!
Senti isso uma vez durante um pesadelo cheio de detalhes sombrios que pontuavam e delineavam minha morte enquanto eu me esforçava fortemente em abrir meus olhos e fugir. 
Mas eu não conseguia.
Enfim, agora sinto um cheiro estranho destes de hospital, tipo daquelas máscaras que exalam gás para sedar os pacientes e isso dá um sono danado, uma moleza no que me resta de raciocínio, tanto que as vozes vão sumindo e termino por apenas imaginar o rosto desesperado de minha mãe se penalizando por algo que provavelmente ela nem fez.
Nem tenho ideia se o pessoal chegou bem em casa.
Engraçado que a dor na cabeça vai sumindo aos poucos, mas meu pensamento está aqui ainda, como se estivesse preso em mim mesmo.
A luz branca, forte e que me cega vai sumindo também. Santo remédio! 

inferno

Engraçado como me sinto tão leve que pareço flutuar pela avenida que corta meu bairro.
Conheço este lugar. Conheço aquele carro. Conheço aquele cara ali deitado.
Estranho.
Bela blusa. Tenho uma igualzinha a não ser pelas manchas vermelhas na manga.

 

Mas o rosto desesperado da minha mãe não sai da minha cabeça.
Conheço-a bem, sempre querendo ser a responsável por tudo e por todos e ela nem se dá conta que já tenho 21 anos e sou o dono de minha vida.
Tudo bem, nem tão dono assim.
Trabalho desde cedo por necessidade familiar, mas esta foi uma imposição que vejo, hoje, com bons olhos, afinal muitos dos que andavam comigo hoje ou estão mortos ou estão no vício.
E olha que quando falo em vício, falo em todos os possíveis.

 

Quando se mora na Zona Norte de uma cidade como o Rio de Janeiro temos muitas opções que  borbulham e nos captam facilmente pelas nossas fragilidades e algumas vezes pelas nossas virtudes.
Quando falo dos que morreram coloco no mesmo grupo os que caíram os “vivos insistentes”.
Aqueles que já morreram e nem perceberam.
Mas afinal cada um com seu cada um e cada um com seu vício.
Todos temos um, não?

 

Continua.
Arte por: Andrei Muller

O que me diz?

 

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Fabio Pires é o cara risonho da foto. Eu sou quem assina boa parte dos textos aqui publicados e quem escolhe os assinados por outros escritores. Sou carioca, tenho um livro publicado e vários outros na cabeça, sou baixista da banda de rock Diabo Verde, ranzinza, ácido, formado em Letras, graduado em filosofia de botequim, escrevo poesia, mas não me acho poeta e desde 1976 venho tentando fazer a coisa certa, mesmo sem saber muito bem diferenciar o certo do errado.