neandertal

O neandertal da vida moderna

 

Muitos da minha geração se sentem assim,
Muitos mesmo e não sabemos muito bem como agir
 
Em certos momentos me acho jovem, porém percebo que meus mais de quarenta anos me pegam pela memória diariamente.
No trabalho fico me controlando para não citar algum momento ou situação que me jogue na masmorra do século passado.
Afinal, eu sou da era pré-computador e usei máquinas de escrever!
Em suma eu nasci sem um celular como acessório obrigatório do dia a dia.

 

Mas tenho sobrevivido (aparentemente) e me esforçado para me adaptar gradativamente a cada novidade tecnológica que toma conta das nossas vidas.
Embora nunca esqueça da minha época.
Não tem nem como esquecer, afinal eu sou de um tempo arqueologicamente não muito distante, mas que pela velocidade de nossa vida cotidiana parece ter acontecido há muito mais tempo.
 
Sou do tempo que Juan Manuel Fangio era o recordista “imbatível” de títulos da Formula 1 e eu achava impossível alguém ganhar mais títulos que ele.
De uma era que Havaianas era calçado daqueles que não tinham grana para comprar um Katina Surf ou um Raider.
Lembro da inflação galopante nos anos 80 em que o mesmo produto de tarde estava mais caro que de manhã.
Me recordo ainda que por fragmentos do nosso primeiro processo eleitoral depois da ditadura
Da época que todos imaginavam o quanto seríamos modernos quando o ano 2000 chegasse e a molecada queria ter um skate voador igual ao do Michael J. Fox.
De um período que alugávamos fitas VHS nas locadoras e de vez em quando devolvíamos no prazo. E quando não, pagávamos multa!
De um instante no tempo que a MTV passava (acreditem os mais novos) clipes de música!
De um momento perdido a memória em que rebobinávamos fitas K7 com caneta Bic para economizar as pilhas.
De um tempo que brincávamos na rua até tarde e voltávamos para casa com os pés tão sujos que só esfregando com lixa para limpá-los.
Que roubávamos doces e guaraná da oferenda que normalmente deixavam nas esquinas do bairro que moro e consumíamos todas estas guloseimas sem culpa alguma de engordar ou mesmo sentíamos medo do santo.
Que para estudar íamos a uma biblioteca.
E pasmem!
Que para papear com algum amigo, nós os antiquados (olhem que incrível), íamos a casa dele!

 

Porém estamos mais do nunca tão perto e tão longe ao mesmo tempo.
Vamos a shows de música, mas os assistimos pelas lentes dos celulares.
Decidimos sair em casal e dialogamos através das redes sociais.
Sorrimos e nos irritamos através de emojis e desfilamos todos os nossos preconceitos em perfis falsos.
Incomodou? Bloqueie! Exclua!
Dialogar ou argumentar? Não sabemos mais do que se trata.

 

Somos e não somos. Estamos e não estamos. 
Nos relacionamos, porém mantemos distância.
O relógio insistentemente corre mais rápido do que estávamos habituados. 
Nos isolamos e como consequência cada vez mais nos vemos ilhados.
Só que sozinhos não temos como sobreviver e isso descobrimos quando ainda éramos neandertais.
E pelo visto esquecemos.                                                                  

 

Ilustração: Blog do Amarildo.

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Fabio Pires é o cara risonho da foto. Eu sou quem assina boa parte dos textos aqui publicados e quem escolhe os assinados por outros escritores. Sou carioca, tenho um livro publicado e vários outros na cabeça, sou baixista da banda de rock Diabo Verde, ranzinza, ácido, formado em Letras, graduado em filosofia de botequim, escrevo poesia, mas não me acho poeta e desde 1976 venho tentando fazer a coisa certa, mesmo sem saber muito bem diferenciar o certo do errado.