O voto é secreto, mas a intolerância é explícita por Eberth Vêncio

O voto é secreto, mas a intolerância é explícita por Eberth Vêncio

Tempo de leitura: 3 minutos
Poucos querem ouvir, mas todos querem falar.
Diálogos nem sempre levam a entendimentos, ainda mais quando tratamos de voto e sexo

 

Ainda vai demorar muito, Bob?

— Já tô quase lá, querida. Peraí.

Anda logo com isso, Bob. Tô com muito sono.

— Não põe pressão, Meg. As coisas não funcionam assim comigo, você sabe muito bem. Por que você simplesmente não olha para o teto e abstrai um pouco?

Caramba. Essa tal de Rita Corvette sabe mesmo como ser vulgar. Põe cada foto no blog dela. Parece uma galinha velha, uma prostituta em final de carreira. Você viu? Que horror.

— Desliga isso, Meg, pelo amor de Deus. Tá me desconcentrando totalmente.

Mojo Filter não para de subir nas pesquisas.

— Imagino. O povo merece candidatos como Mojo Filter. Humm… Tá endurecendo de novo. Agora vai. Segura as pontas aí, baby. Papai está conseguindo.

As próximas eleições vão ser um porre. Você acredita que o velho Mojo condecorou o fantasma do Almirante Ultra em pleno plenário do Senado? O cara torturava estudantes com penas de ganso.

— Não brinca com coisa séria, Meg. Ele era o demônio de farda. Não consigo me concentrar com você falando feito uma tagarela. Tá difícil, viu? Vira, por favor. Deixa eu ver se por trás dá certo.

O orifício é estreito, Bob. Não força. Você bem que podia deixar isso pra amanhã, querido. Tenho que estar na Estação de Escambau-a-quatro às cinco da matina. Juro que eu preferia estar entre esses 13 milhões de desempregados. Emprego desgraçado. Vida desgraçada. Queria tanto me mandar dessa desgraça de país, Bob.

— Jesus, não tá funcionando. O que será? Vira novamente, gracinha. Deixa eu tentar mais uma vez pela frente.

Passa cuspe, bebê. Escuta mais essa: tem um projeto de lei tramitando na assembleia que propõe o banimento dos aparelhos celulares das salas de aula em todo território nacional. Esse povo tá de brincadeira, Bob.

— Seria ótimo. Deveriam banir nas casas das pessoas também. Talvez, quem sabe, assim eu tivesse alguma chance de atingir os meus objetivos.

Esse cara é um trouxa, Bob. Deve ser um antropólogo gay, um professorzinho de escola pública, um desses caras peludos da esquerda. Só pode. Ele deve estar pensando que a gente ainda vive na Idade Média. Vem aqui, meu cut-cut-cut… — ela diz imitando voz de criança, beijando a tela do telefone celular como se fosse um gatinho.

— Chega um pouco mais pra cima, Meg. É isso aí. Assim. Agora, sim. Entrou tudo. Encaixou perfeitamente.

Ainda bem que eu já saí da escola, Bob. Não dá pra imaginar um mundo sem o Maçãzinha Mordida. Aliás, tô precisando de um novo. Você me dá um telefone novo, Bob? Esse aqui já tem seis meses, tá parecendo uma carroça.

— (silêncio no quarto)

Vai demorar, amorzinho? Papo reto. Você não faz ideia. Já estou que nem Jesus Cristo: pregada.

— Você não contribui, Meg. Não me incentiva. Parece que não se importa comigo, que não tá nem aí pra paçoca.

Eita… O Tessalonicenses contratou aquele técnico dos 7 a 1. Que vergonha. Agora cai mesmo pra segundona.

— Um pouquinho pro lado, Meg. Assim. Isso. Agora ficou ótimo. Tá no lugar certinho. Agora, deu. Humm… Que maravilha, Senhor. Obrigado, Pai.

Chega, amor. Já estou até sentindo cãibra e você não termina isso.

— Já teria conseguido se você não largasse a porcaria desse aparelho celular. As coisas não era assim antes da gente casar, sabia?

Quer continuar essa treta sozinho, gato? Se quiser, eu caio fora.

— Se liga, gata, já estou quase no fim. Agora falta pouco. Quase lá.

Sabe, Bob? Nunca na vida eu quero ter um filho com você. Nem com você, nem com homem nenhum, entende? Não é que eu não te ame, Bob. Acontece que eu não quero ter um filho, não quero deixar descendentes no planeta.

— Tá.

Tá? É só isso que você tem pra dizer, Bob?

— Puta merda. Hoje tá foda, viu?

Para de reclamar e acaba logo com isso, cavalinho. Já estou com gastura. Putz! Prenderam o Doutor Bumbum.

— Quem é esse cara?

Um médium que injetava baba-de-camelo nos glúteos da mulherada.

— Tá zoando comigo.

Sério. Acho que vou fazer o meu bumbum sorrir antes do próximo verão. O que você acha, Bob?

— Não tem nada de errado com a sua bunda, Meg.

Você é um fofo.

— Aaaahhhhh! Upa-lá-lá! Sim! Sim. Sim, baby! Hosana nas alturas! Obrigado, minha Nossa Senhora da Aparecida! Pelo Sangue do Cordeiro! Pronto.

Pronto o quê, Bob?

— Terminei, ora e essa.

Já não era sem tempo.

— Ficou ótimo.

Nem tanto, cachorrinho.

— Ficou, sim. Admita. Ficou ótimo.

Tá se achando, né?

— Eu merecia sexo aqui e agora, baby. Isso sim. Deus é testemunha da minha total entrega.

Sem chance, gato. Vou pra cama dormir. Amanhã eu acordo de madrugada. Boa noite, Bob.

— Boa noite, Meg. Eu te amo. Uau. Foi demais. Isso aqui ficou mesmo uma belezinha.

Apreciou a estante nova, guardou as ferramentas e foi tomar uma ducha.

 

Postado na Revista Bula.

Foto por: Burst.


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