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Tempo de Leitura: 3 minutos

Os restos de uma Guerra

Os restos de uma Guerra

Passamos pela pandemia.Passamos?Eu não sei bem. A verdade é que digo isso baixinho, entre os dentes, sem muita pretensão de que me escutem. Vai que dá azar ficar mesmo cantando vitória antes da hora?Por mais que pareça assustador ser tão otimista, parece (EU DISSE QUE PARECE), estamos já, longe daquele inferno pelo qual passamos durante

Tempo de Leitura: 3 minutos

Passamos pela pandemia.
Passamos?
Eu não sei bem.

A verdade é que digo isso baixinho, entre os dentes, sem muita pretensão de que me escutem.
Vai que dá azar ficar mesmo cantando vitória antes da hora?
Por mais que pareça assustador ser tão otimista, parece (EU DISSE QUE PARECE), estamos já, longe daquele inferno pelo qual passamos durante os últimos dois anos.
Estou ciente de que muitas pessoas ainda morrerão, e sinto por elas. Mas os números já nem chegam perto daquelas somas absurdas de antes.

Foi uma guerra.
Ainda está sendo, e nem sei se poderei contar, em um futuro próximo, sobre ela.
Talvez por isso conte agora: foi uma guerra.

Não é como se em algum momento o Mundo tenha sido um lugar fácil.
Desde que habitamos esse pálido ponto azul, ouvimos falar da fome que assola camadas da população que se tornam cada vez mais invisíveis à medida que padecem por sua miséria.
Sempre precisamos enfrentar doenças com a certeza de que uma boa situação financeira pode quase tudo; Mas mesmo os grandes escolhidos do mundo e da sorte não fogem à morte causada por flagelos mais severos, como um tumor terminal ou uma embolia pulmonar.
Nunca foi novidade também ver crianças armadas em pequenas províncias ou grandes países de Teocracia gritante, moral rígida e senso de humanidade absolutamente questionável.
Mas é fato que nunca estivemos como nos últimos dois anos: de joelhos, roendo ossos, em busca de ar e de um olhar amigo.

O Coronavírus não foi apenas um terrível ceifador de vidas, mas um rombo na psique de muitos;
Crianças, jovens e idosos tiveram suas vidas abaladas de forma dura.
Quem teve a graça de não perder familiares, acabou desenvolvendo medo de praticar atividades normais, como ir ao shopping, andar de ônibus, ir ao cinema, entrar em lugares cheios. Em breve, teremos uma vasta geração necessitando de tratamento sério para Estresse pós-traumático.

Tudo o que era normal, sobretudo aos povos de sangue quente, como o brasileiro, nos foi tirado: da noite para o dia, não pudemos mais abraçar, beijar, tocar as mãos de nossos amores e amigos.
Os médicos, que antes diziam que um ser humano normal deveria dar oito abraços por dia para ter um coração saudável, passaram a implorar que ficássemos distantes uns dos outros; a curiosos oito metros de distância, para ser exata.
Perdemos parte de nossa essência, de nossos corações e, claro, de nossa capacidade de dar afeto de graça.




As mortes foram brutais, frutos do terrível vírus, do descaso e do negacionismo. Uma soma dos 3.
E não, eu não estou falando apenas do Brasil, muito embora sejamos um destaque na habilidade de destruir famílias a partir da não implementação de medidas sanitárias mínimas e desinformação oficialmente patrocinada.
Ainda não sei se há um prêmio para isso… Uma runa com um raio duplo ou uma cruz malta de ferro negra, talvez.

E entre mortos, enlutados e sobreviventes com sequelas, muitos perderam parte de sua vida normal.
Familiares, empregos, salário normal, oportunidades, saúde, paz, tempo…
É estranho como contabilizar tudo o que essa pandemia nos tirou faz parecer que perdemos muito mais do que imaginávamos.
E tenho a impressão que por toda uma vida, ainda contaremos as perdas.

Perdemos até o senso de normalidade.
É normal apertar a mão de um conhecido?
Dar um abraço, ainda é normal?
Quando as crianças poderão brincar juntas novamente?
Quando os professores poderão se preocupar com o comportamento da turma, em vez de temer pela própria vida e pela vida de seus alunos? Quando poderei ver algumas pessoas tão amadas que há tanto não vejo?
Quando voltaremos a ter coragem de andar nas ruas sem a impressão de que tudo nos impregna?

Foi uma guerra.
E pode até ser que não tenha acabado, mas estamos neutralizando o inimigo.
Mas não. Nós não vencemos a batalha contra o Covid.
Adoraria que tivéssemos vencido, mas dizer isso seria uma mentira triste e lamentável digna daqueles que se valem de cretinices convenientes para agradar um público só seu: os revanchistas e ufanistas envelhecidos por suas amarguras, por guerras que não lutaram.

Eu lutei essa guerra em uma trincheira.
Nenhuma bala me pegou. Nenhum míssil me atingiu. Mas não saí inteira.
Perdi companheiros. Perdi gente da família.
Perdi boa parte do meu sorriso bobo, de adulta que nunca cresceu por completo.
Evito ir à rua quando não é necessário. Perdi a coragem de sair para correr e evito a rua como se algo fosse me fazer mal lá fora. 
Já não tenho medo de morrer há tempos, porque a gente acaba ficando indiferente para si e para os outros.
Já cheguei aos 32, e nem esperava por isso. Mas perdi a mania de olhar tão atentamente para o futuro.
Hoje, vacinada com as duas doses, acredito que essa guerra está se encaminhando para o fim.
Ou quase isso.

Mas perdemos.
Estamos nos reerguendo dos restos do que já foi normal.


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