A raivosa atualidade da Idade Média
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A raivosa atualidade da Idade Média

Tempo de leitura: 4 minutos
Ultra direita procura no passado remoto justificativa para suas políticas atuais

 

idade Média se transformou em um assunto de intenso debate político.

Não todo o período histórico, claro, ninguém discute sobre Excalibur e os Cavaleiros da Távola Redonda.

O que está sobre a mesa é o momento das invasões muçulmanas, uma época de intensas mudanças políticas em uma Europa cujas fronteiras estavam sendo forjadas.

 

Esse é um debate que aparece em alguns casos como farsa

Por exemplo, quando recentemente foi retirada uma estátua de Abderramão III na cidade espanhola de Cadrete (nome árabe), como primeira medida de uma prefeitura comandada pelo Vox.

Mas em outras ocasiões emerge como tragédia: o assassino que em março matou 50 pessoas em duas mesquitas da Nova Zelândia era obcecado com heróis míticos medievais da luta contra o Islã —do espanhol Don Pelayo ao sérvio Milos Obilic—, e escreveu seus nomes nos carregadores com os quais realizou a matança.

 

“Não somente na Espanha, como em toda a Europa, a história da Idade Média se transformou em um foco de debate cada vez mais intenso”, diz Maribel Fierro, professora pesquisadora do CSIC e especialista em Al-Andalus.
“A ideia da recuperação de uma suposta identidade imutável dos povos voltou a ressurgir. Os períodos que reivindicam são momentos em que ocorreram batalhas contra os muçulmanos. Sua ideia, totalmente infundada, é que o Islã é o inimigo da Europa”.

 

As batalhas que aparecem repetidamente nesse imaginário são Poitiers em 732, Covadonga em 722 (ou 718, 737 ou 754, de acordo com as diferentes versões), Kosovo em 1389 e, muito mais tarde, Viena em 1683.

As duas primeiras foram confrontos com as tropas árabes e berberes procedentes do norte da África e da península Arábica; as segundas, contra os turcos.

O problema com Poitiers, Covadonga e Kosovo é que são acontecimentos em que a história se mescla ao mito e sobre os quais os especialistas têm poucos dados, dispersos, tardios e duvidosos.

Não se conservou o relato de uma testemunha contemporânea de nenhuma dessas batalhas.

Todos esses mitos também foram reinterpretados nos séculos XIX e XX quando ocorreu a explosão dos Estados nacionais na Europa e se transformaram em relatos fundacionais.

 

As primeiras versões da batalha de Covadonga, com a qual começou a chamada Reconquista, vêm da Crônica de Alfonso III, por volta do ano 900, ainda que esse relato só tenha se popularizado no século XIII.

É possível dizer a mesma coisa da batalha de Kosovo, o grande mito nacional sérvio, explorado até a última gota pelo nacionalismo balcânico.

Na verdade, como afirma o historiador Noel Malcolm em Kosovo: A Short History (Kosovo: Curta História), ignora-se quase tudo sobre esse combate, não se sabe com certeza nem mesmo quem ganhou:

A tradição diz que os sérvios perderam seu Estado aos turcos e construíram seu nacionalismo sobre a nostalgia e a derrota.

O cavaleiro Milos Obilic, entretanto, que segundo a lenda matou o sultão Murad, é venerado quase religiosamente e fazia parte do avariado universo mental do assassino de Christchurch na Nova Zelândia.

 

Sobre a batalha de Poitiers, em que Carlos Martel supostamente derrotou os muçulmanos impedindo seu avanço ao norte, o medievalista da Universidade St. Andrews James T. Palmer escreveu um ensaio muito interessante.

O artigo foi publicado no The Washington Post com o título de A história falsa que impulsionou o acusado da matança de Christchurch.

No texto o professor mostra como a interpretação do confronto foi mudando: para Edward Gibbon, no século XVIII, simbolizava a perda da herança da Grécia e Roma.

Para Jules Michelet, no XIX, não era muito importante porque o problema estava nas invasões germânicas do norte.

Segundo Steve Bannon, um dos ideólogos do pensamento ultradireitista atual, ex-assessor da Casa Branca, essa batalha representa um convite a defender o Ocidente contra o Islã.

“Não existem novas fontes históricas e sim uma nova agenda”, escreve Palmer.

“Ao invocar o legado de Carlos Martel, o assassino de Christchurch abusa da história para justificar a violência.

Ele se baseou na maneira em que esse acontecimento aparece descrito em muitos livros e sites, de modo que não se trata somente de um problema de ignorância.

“O que precisamos entender e combater é como momentos históricos como Poitiers receberam um significado através da política”.

 

Por trás dessa visão nacionalista do medievo se escondem vários pressupostos contraditórios com a pesquisa científica contemporânea.

Primeiro, que os habitantes da Europa no século XXI são os herdeiros dos que habitavam esse mesmo lugar há séculos.

Essa afirmação ignora que as unidades políticas são completamente diferentes, para não falar das migrações e misturas que marcam a história.

Segundo, que podem ser estabelecidos paralelismos entre sociedades de séculos atrás e as atuais, sem levar em consideração as abismais diferenças que as separam em inúmeros assuntos, da escravidão à tecnologia e, por último, que, mesmo admitindo essa herança, ela não precisa condicionar o presente.

 

“Essa mobilização reivindicando o passado é sempre ligada a tensões do presente, à necessidade de certas comunidades, ideologias e projetos políticos de encontrar suas justificativas”, diz Eduardo Manzano Moreno que recém-publicou La Corte del Califa (A Corte do Califa).
“A simples regra de maior ou menor proximidade em relação a esse passado nem sempre funciona:
Os romanos e os mongóis puderam cometer todo o tipo de massacres e ninguém se importa, mas no caso dos muçulmanos, o discurso conservador tenta colocar a ideia de uma similitude exata entre o que ocorreu na Idade Média e o presente, algo que os próprios radicais islâmicos também alimentam”.

 

O historiador Jean-Paul Demoule estudou o assunto em seu livro Les dix millénaires oubliés qui ont fait l’histoire (Os Dez Milênios Esquecidos que Fizeram a História)

E explica como os nacionalismos que explodem após a Primeira Guerra Mundial exploram a ideia de um povo que se manteve imutável ao longo dos séculos submergindo-se até mesmo na pré-história.

“Foi preciso garantir a cada um desses Estados um passado glorioso, que se remonta aos confins dos tempos e que garante a existência da nação através da eternidade”, escreve o professor de Sorbonne.

Seu ensaio acaba com uma pergunta:

“A história não é muito mais interessante quando os seres humanos a escolhem do que quando a padecem?”.

 

Publicado no El Pais.


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Quando deixar tudo é a única opção
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Quando deixar tudo é a única opção

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Há momentos em que deixar tudo é a única opção.

 

Longe de ser um ato de covardia ou de rendição, quem escolhe fazer as malas e olhar para o horizonte, veste a pele dos bravos autênticos.

Porque no final, a pessoa se cansa de segurar um coração partido, de chorar em segredo, e antes que a alma nos sopre, temos que sair.

Deixar tudo não implica em nada esquecer tudo o que viveu ou desenraizar todas as nossas identidades, todos os nossos elos.

É simplesmente sobre nos transformar.

Integrar o passado, o presente e o desejo de um futuro, num único ser, numa entidade capaz de se criar e não de “recriar-se” no sofrimento, na dor, no que é como um castelo de areia.

Na beira do oceano, não mais se sustenta.

De alguma forma, todos nós chegamos ou viremos a experimentar essa mesma sensação.

Aquilo de perceber aquela parte do que nos rodeia perdeu seu significado: algo acaba de expirar.

Há aqueles que têm a necessidade urgente de experimentar coisas novas, enquanto outros, o que eles percebem é a obrigação imperativa de se afastar do que os rodeia.

Para sua saúde física ou emocional.

Seja como for, deixar tudo não é fácil. Em nossa bagagem, somos acompanhados de medo e incerteza, e embora a cabeça diga “vai”, o coração se sente incapaz de fechar a mala.

 

Deixar tudo é também um ato de sobrevivência

Algo que falamos inúmeras vezes em nosso espaço é que nosso cérebro não gosta das mudanças.

Uma mudança implica risco e, portanto, um desafio para nossa sobrevivência.

No entanto, há um tipo de situação em que esse arquiteto interno de emoções, instintos e comportamentos nos dá um toque muito relevante.

Vamos dar um exemplo. Estamos passando por um período de intenso estresse.

Nosso ambiente exigente nos leva ao limite.

E mesmo nós, longe de administrar essa pressão, nos deixamos levar nessa maré incessante.

Agora, uma manhã, quando pegamos o metrô para trabalhar, nossos pés e nossa mente tomam outro rumo.

Começamos a caminhar e a caminhar, até quase sem saber como, chegamos à periferia do centro urbano, onde apenas a calma, o repouso e o equilíbrio vivem.

Nós precisávamos “escapar”.

Nosso instinto de sobrevivência repentinamente toma as rédeas e nos oferece o que pode nos ajudar mais: distância e silêncio.

Nosso cérebro não gosta de mudanças, mas devemos ter em mente que fará todo o possível para sobreviver e, portanto, esse convite para “deixar tudo” se traduz em uma necessidade de “cuidado pessoal” que não podemos ignorar.

Como fato curioso, falaremos sobre John Tierney.

Este jornalista do “New York Times” escreveu um livro chamado “Força de vontade” que se tornou um best-seller ao descrever suas próprias experiências com estresse, ansiedade e pressões externas.

Ele descreveu como o “autocontrole” mantido ao longo do tempo pode nos destruir.

Viver em situações opressivas faz com que, mais cedo ou mais tarde, o descrito acima aconteça: nosso cérebro bate na mesa para nos dar a entender o seguinte: ou fazemos uma mudança ou simplesmente perdemos tudo.

 

Se sua vida não é sua vida, procure sua verdadeira vida

Se a existência que você está carregando agora não se encaixar nos seus quebra-cabeças internos, vá embora.

Se você é um estranho em sua vida, saia e procure por si mesmo.

Se a realidade que o rodeia agora é habitada por pinos, voa.

Sua saúde física e emocional vai agradecer.

Agora, deixar tudo é algo que só nós mesmos podemos decidir.

Haverá quem tenha o suficiente para fazer pequenas mudanças para encontrar o bem-estar.

No entanto, em outras ocasiões, mudanças específicas não são suficientes.

Eles não aliviam, não curam, não reparam.

Precisamos dar um passo maior para deixar mais distância nos mapas pessoais que nos definiram antes.

 

Chaves para encontrar sua verdadeira vida

Ao deixar tudo, devemos ser claros sobre por que fazemos e que objetivo temos em mente.

Porque quando uma pessoa tem um “por quê” ele pode passar por qualquer “como”.

Se você favorece uma mudança, você a faz efetivamente, para ser aquela que realmente deseja: alguém feliz, alguém que toma as rédeas, alguém que se dá uma nova oportunidade de ser feliz.

Quando passamos por esses “tsunamis emocionais”, é necessário refletir e conversar com nós mesmos.

A melhor resposta sobre o que você deve ou não deve fazer é dentro de você.

Deixar tudo está longe de “escapar”, indicamos no início.

Portanto, você deve deixar claro para o seu ambiente por que você está fazendo isso.

Assuma o controle total de suas ações.

Ninguém vai garantir que esta mudança vai dar certo, no entanto, pode ser o melhor em sua vida.

Portanto, devemos administrar medos e incertezas.

De que maneira? Transformando-os em ilusões.

Lembre-se, finalmente, que nosso único propósito nesta vida é “florescer”.

Agora, é necessário sempre encontrar os melhores lugares, porque nem todos os cenários são saudáveis para nutrir nossas raízes.

 

Fonte:La Mente es Maravillosa.
Autora: Valeria Sabater.


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Como a revista Mad incentivou o espírito crítico dos leitores
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Como a revista Mad incentivou o espírito crítico dos leitores

Tempo de leitura: 2 minutos
‘Questione a autoridade’ era um dos princípios editoriais da publicação
Que deixará de oferecer material inédito depois de 67 anos

 

Talvez Alfred E. Neuman esteja, finalmente, preocupado. A revista satírica Mad anunciou nos Estados Unidos que irá cessar a produção de material novo. A publicação completou 67 anos de existência em 2019.

“Quem, eu me preocupar?” era o bordão do mascote que aparecia em quase todas as capas, um sujeito de aspecto aparvalhado e com um dente a menos.

Fundada em 1952 por um grupo de editores liderado por Harvey Kurtzman, a revista passará a publicar apenas trabalhos antigos, selecionados de seu amplo acervo.

Material inédito apenas em livros e edições especiais. A publicação também não será mais vendida nas bancas americanas, apenas em livrarias de quadrinhos e por assinatura.

No seus melhores dias, a circulação da revista passava dos dois milhões de exemplares mensais. Em 2017, o número era de aproximadamente 140 mil.

Em 2018, o comerciante americano Doug Gilford criou um site com as capas de todos os números da edição americana da revista.

É possível consultar um índice com o conteúdo de cada edição desde 1952.

Além das contribuições de todos os criadores de textos e desenhos da revista.

FOTO: REPRODUÇÃO
Como a revista Mad incentivo espírito crítico dos leitores

 

A revista foi publicada no Brasil entre 1974 e 2017

Quase sem interrupções, por diferentes editoras e bastante conteúdo local. Entre os colaboradores da Mad nacional, estavam nomes como Nani, Marcatti, Xalberto e Carlos Chagas.

No Brasil a recordista foi a edição 20 da [editora] Vecchi (Tubarão na capa), cuja tiragem foi de 210 mil.

Depois estabilizou-se em 150 mil. 

Quando esteve na mão da [editora] Record também voltou a este patamar na época do Plano Cruzado  e aos poucos foi caindo e parou em 2000 quando vendia 8 mil, afirmou Ota Assunção, cartunista e editor da Mad brasileira por 34 anos.

 

Sátira e espírito crítico

Qualquer pessoa ou instituição podia ser alvo de Mad.

Que voltava seu humor na direção de filmes, programas de TV, autoridades, políticos, celebridades, intelectuais, religiosos, cientistas, modismos, costumes, propaganda, marcas e produtos.

Muitos comentaristas consideram que a revista foi pioneira em uma abordagem cética em relação às mensagens emitidas pela mídia, empresas e políticas.

Graças ao olhar impiedoso da Mad, gerações aprenderam a questionar e serem mais críticos em relação à aparência e o discurso de muitas coisas.

A Mad pregou a subversão e a verdade sem adulteração em uma época em que o chamado jornalismo objetivo mostrava deferência às autoridades, escreveu Michael J. Socolow, professor-associado de jornalismo e comunicação da Universidade do Maine.

Enquanto apresentadores regularmente papagaiavam afirmações governamentais questionáveis, a Mad chamava de mentirosos os políticos que mentiam.

 

Segundo John Ficarra, editor-chefe da revista entre 1985 e 2018, a missão editorial foi sempre a mesma:

Todo mundo está mentindo para você, incluindo as revistas.

Pense por si mesmo.

Questione a autoridade.

 

Originalmente no Jornal Nexo.

Você já leu a Revista Mad?
Zygmunt Bauman: somos aquilo que podemos comprar
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Zygmunt Bauman: somos aquilo que podemos comprar

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Zygmunt Bauman é um sociólogo e filósofo polonês
Que se debruça sobre os problemas do capitalismo

 

Ou melhor, sobre a face mais perversa e doentia do capitalismo insano e selvagem: a ideia de que somos aquilo que podemos comprar.

Ele observa que a sociedade atual, bombardeada pela propaganda incessante, vive em estado de estresse e ansiedade, pressionada a consumir cada vez mais.

A sociedade atual sequer consegue pensar em soluções para seus problemas, afinal, não há tempo para isso.

Temos muitas contas para pagar e perdemos completamente o poder de decidir nossas vidas.

 

 

Aliados a essa mentalidade, os bancos se dedicam aos clientes que não conseguem pagar suas contas, preferindo que o indivíduo faça um empréstimo para pagar outro empréstimo, pois, afinal, lucram (e muito) com os juros.

O indivíduo disciplinado que paga suas contas precisa ser capturado pela lógica do endividamento, pois é uma ameaça ao lucro das instituições financeiras.

Aqueles que não podem pagar não têm acesso aos shoppings centers, os santuários espirituais das sociedades de consumo.

Nossa época reflete, segundo Bauman, um momento onde o poder político desvinculou-se do poder econômico.

Assim, a política tornou-se ilusão, pois as decisões políticas devem ser do interesse do poder econômico.

 

Se no passado o capitalismo era norteado pela cultura da poupança, onde as pessoas faziam sacrifícios para obter aquilo que necessitavam, hoje vivemos a ilusão do “aproveite agora e pague depois”.

E pague, de preferência, por coisas que não precisa.

A criação de necessidades é uma especialidade desse esquema cruel e excludente.

Contudo, até mesmo o supremo poder econômico, que tudo domina, irá consumir a si mesmo.

Estamos, segundo Bauman, em uma época sem líderes ou política, orientados tão somente pelo consumismo, sem direção ou objetivos.

Somente após o previsível colapso de nossas sociedades de consumo é que buscaremos soluções mais sensatas.

 

Por Pensar Contemporâneo.


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https://amenteemaravilhosa.com.br/pessoas-acham-mundo-gira-seu-redor/
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Há pessoas que acham que o mundo gira ao seu redor

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Há pessoas que parecem não saber que a terra gira em torno do Sol,
E não em torno delas

 

Não entendem que a vida não gira só ao seu redor, que seu umbigo não é o centro do mundo nem das pessoas que o rodeiam.

Por isso se autoproclamam importantíssimos, gerando com seus comportamentos uma fortíssima rejeição social.

Como consequência, mantêm comportamentos egocêntricos e enchem nossos ouvidos de mensagens e comportamentos que chamam a gritos por atenção.

Gritos que são tão ensurdecedores que nos saturam e esgotam com facilidade.

 

Lidar com uma pessoa que tem comportamentos egocêntricos é cansativo por muitas razões. Analisemos algumas delas a seguir…

 

O egocentrismo, o excessivo culto ao “eu”

Acreditar que você mesmo é o centro do mundo e sentir-se mais importante que todas as outras pessoas é desastroso para uma boa evolução de nossas relações sociais.

Não gostamos que ninguém tente impor suas opiniões, pensamentos e interesses: de fato, é fácil saber com razão e um bom discernimento que uma pessoa que não se acha melhor que ninguém tenta chegar a um equilíbrio e garante o bem comum.

A arrogância não se importa com o bem-estar dos demais, não sabe que este é tão importante quanto o bem-estar pessoal.

Elas, as pessoas egocêntricas, estão certas de que são especiais, e mais, de que sua personalidade é absolutamente encantadora.

No entanto, quando algo não segue o caminho que o egocêntrico deseja, então ele se converte em ogro, déspota que só quer fazer com que as coisas caminhem do seu modo, ainda que para isso tenha que se aproveitar e manipular as pessoas em volta.

 

Pode ser que eles se justifiquem dizendo a famosa frase 
“É que eu tenho um gênio muito forte”

 

Uma variante do estilo eu não tenho defeitos, nós dois que não encaixamos.

Com certeza lembramos de muitas pessoas que em algum momento fizeram ou fazem parte de nossas vidas hoje com essas frases.

Eles se autopromovem e se consideram especiais e infalíveis, superiores aos outros.

Isso, sem dúvida, tem como consequência a criação de problemas na hora de fazer amizades e mantê-las, pois ninguém tem nenhum benefício por estar ao lado de pessoas que só conseguem pensar em si mesmas.

A autoestima, no entanto, não tem nada a ver com o egocentrismo:

A autoestima é um sentimento saudável e tolerante, o egocentrismo é um modo de ser vazio, irreflexivo, excessivo e intolerante.

As pessoas egocêntricas não gostam realmente de si mesmas, na verdade usam como escudo essa proclamação excessiva de seu amor próprio como modo de distorcer o autoconceito negativo que realmente escondem.

Esse é o motivo pelo qual precisam se sentir tão adulados e admirados.

 

Caminhava com meu pai quando ele se deteve em uma curva e, depois de um pequeno silêncio, me perguntou:

-Você escuta alguma coisa além do cantar dos pássaros?

Agucei meus ouvidos e alguns segundos depois respondi:

-Estou ouvindo o barulho de uma carroça.

-Esse barulho – disse meu pai – é de uma carroça vazia.

-Como você sabe que é uma carroça vazia se ainda não a estamos vendo? – perguntei ao meu pai.

-É muito fácil saber quando uma carroça está vazia por causa do ruído. Quanto mais vazia a carroça, maior é o ruído que faz – me respondeu.

 

Virei um adulto e até hoje quando vejo uma pessoa falando muito, interrompendo a conversa de todo mundo, sendo inoportuna ou violenta, presumindo as coisas para favorecer a si mesmo, mostrando-se prepotente e falando mal das outras pessoas, tenho a impressão de ouvir a voz do meu pai dizendo:

“Quanto mais vazia a carroça, maior o barulho que faz”

A humildade consiste em calar nossas virtudes e permitir aos outros que as descubram.

E lembre-se de que existem pessoas tão pobres que o único que têm é dinheiro.

E ninguém está mais vazio que aquele que está cheio de si mesmo.

 

Tipos de egocentrismo ou tipos de carroças vazias

 

Da história da humanidade e da cultura popular podemos extrair vários tipos de pessoas que excessivamente exaltam a si mesmos:

  • Estrelas: são aquelas pessoas que buscam admiração e contemplação de si.
  • Nero: são aquelas pessoas que costumam dominar e submeter os outros, ou seja, afirmar seu poder através da máxima “nunca confie em ninguém”.
  • Cinderela: são os vitimistas que fazem de seu cotidiano um sofrimento eterno, uma arma para conseguir a atenção dos outros.
  • Sozinho: basicamente faz de seu mundo um lugar de reprovação e crítica, acreditando que ninguém, além dele próprio, merece nada.

 

Além desses, há tantos tipos de egocentrismo como pessoas que pecam sendo egocêntricas.

Muitos de nós já fomos assim em algum momento de nossas vidas, ou vamos ainda ser um dia.

Antes de tudo é essencial termos consciência e frear os comportamentos egoístas.

O importante é não dar crédito e atenção aos comportamentos que alimentam o ego.

Pois se o alimentarmos só contribuiremos para que essas pessoas sigam se considerando o centro do mundo e, como já sabemos, o centro do universo não é um lugar que está ocupado por ninguém.

 

Original no site A mente Maravilhosa.


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Os extremistas têm problemas para perceber que estão errados
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Os extremistas têm problemas para perceber que estão errados

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Radicais mostram dificuldades cognitivas para assumir o erro
E têm maior confiança em seu julgamento

 

Toda pessoa que já discutiu sobre política sabe que é quase impossível convencer alguém de que está enganado, principalmente em questões ideológicas, mas essa possibilidade existe, embora seja pequena.

Já quando se trata de extremistas, essa possibilidade é quase nula.

Dada a crescente relevância dos movimentos políticos radicais, surgiram nos últimos anos novos estudos destacando o excesso de confiança que os mais radicais têm em sua própria opinião.

Agora, alguns cientistas resolveram verificar se há algo mais dentro das cabeças mais fanáticas que as impede de sair de seus dogmas, independentemente da ideologia, da pressão social e do ego.

 

Queríamos esclarecer se as pessoas que têm crenças políticas radicais geralmente estão muito seguras de suas crenças, ou se se trata de diferenças na metacognição, que é a capacidade que temos de reconhecer quando estamos errados, explica Steve Fleming, neurocientista da University College de Londres.

Sua equipe fez um estudo com quase 400 indivíduos, repetido depois com mais de 400, para comprovar se as pessoas de extrema esquerda e de extrema direita sempre têm mais confiança em suas próprias opiniões ou se o problema é que têm dificuldade em perceber que se enganaram.

 

O experimento era simples:

Ia sendo mostrada aos sujeitos uma série de pares de quadros com pontinhos em seu interior e eles tinham de ir escolhendo qual dos dois continha mais pontos.

Depois, deviam indicar seu grau de certeza quanto à sua escolha.

Nesta primeira fase da prova, extremistas e moderados acertaram por igual e manifestaram o mesmo nível de confiança em sua escolha quando acertaram.

No entanto, quando erraram, os extremistas se mostraram mais confiantes de ter acertado.

Em uma segunda fase do experimento, os pesquisadores iam informando aos participantes se estes tinham acertado ou errado em sua resposta antes de passar ao próximo par de quadros.

O que os cientistas observaram é que os sujeitos baixavam o nível de confiança em seu próprio julgamento depois de saber que tinham errado.

Ou seja, os erros os faziam duvidar de sua capacidade, mas os extremistas, notavelmente, não perderam tanta confiança, apesar de seus enganos.

Estes resultados mostram que as pessoas mais dogmáticas manifestam uma capacidade reduzida de discriminar entre suas decisões corretas e incorretas, conclui o estudo, publicado na Current Biology.

 

Descobrimos que as pessoas com crenças políticas radicais têm uma metacognição limitada.

Muitas vezes, elas têm uma certeza errônea e resistem a mudar suas crenças diante da evidência”, explica Fleming.

Essa metacognição de que fala o neurocientista, poder pensar sobre o próprio acerto, está fortemente vinculada à capacidade de incorporar novas evidências depois de uma decisão, o que permite reverter escolhas incorretas.

Para Fleming, o resultado chama muito a atenção, já que uma tabela com pontos não é algo com o que essas pessoas possam se sentir especialmente envolvidas.

Se elas custam mais a ver suas falhas em algo assim, é natural que esse problema se multiplique em questões mais pessoais ou ideológicas.

Além disso, os pesquisadores consideram que essa deficiência cognitiva dos mais radicais não ocorre apenas na política, como demonstrariam os vínculos que surgem entre fundamentalismo religioso e autoritarismo:

“Acreditamos que os mecanismos cognitivos que apoiam as crenças radicais podem ser os mesmos entre diferentes domínios, enquanto o conteúdo de uma crença específica provavelmente depende de outros fatores, como a educação e a exposição a diferentes grupos sociais”, assinala Fleming.

Um estudo recente, por exemplo, mostra que as opiniões mais radicais contra os alimentos modificados geneticamente se associam a um menor conhecimento sobre essa tecnologia, mas com uma maior confiança em sua própria opinião.

 

A rigidez mental do Brexit

Nos últimos tempos, vários estudos mostraram que os extremistas políticos possuem uma maior rigidez mental que os impede de reconhecer outros enfoques, reconhecer suas próprias debilidades e aceitar mudanças.

Por exemplo, um trabalho de pesquisadores da Universidade de Cambridge com votantes do referendo sobre o Brexit mostrou que aqueles que tinham mais dificuldades cognitivas para se adaptar a uma mudança de categoria em um teste eram mais propensos a ser autoritários, nacionalistas, conservadores e a votar a favor da saída da Grã-Bretanha da União Europeia.

Outro estudo realizado nos EUA apontou que o sentimento de superioridade a respeito da própria ideologia (ou seja, acreditar que a sua posição é mais correta que a dos outros) é um bom indicador de extremismo ideológico.

 

Tanto as pessoas de extrema esquerda como as de extrema direita, por igual, tinham um maior convencimento do que as demais de estar certas.

José Manuel Sabucedo, catedrático da Universidade de Santiago de Compostela, trabalhou com base nessa mesma ideia para saber se acreditar ser dono da verdade era uma boa forma de prever o radicalismo político.

Descobrimos que o monopólio da verdade é um bom indicador de futuras atitudes extremistas, o que permite intervir em relação àqueles que se acreditam no direito e na obrigação de impô-la aos demais”, explica Sabucedo.

Sabucedo considera que isso se enquadra no conceito de realismo ingênuo, que é como se define quando os indivíduos acreditam que a realidade é da forma que eles a percebem.

E se você não compartilha minha forma de ver as coisas, é porque não tem informação, não tem capacidade analítica ou está influenciado por sua ideologia, pensam esses indivíduos segundo Sabucedo, presidente da Sociedade Científica Espanhola de Psicologia Social.

Esse fenômeno, assinala o catedrático, é perigoso porque poder levar alguém, “inclusive de boa fé”, a forçar outras pessoas a ver sua “verdade”.

 

No entanto, Sabucedo considera que o estudo de Fleming sobre a metacognição tem um efeito limitado.

“É interessante, mas deixa de fora a importância do contexto. Em épocas como esta, quando surgem radicalismos e extremismos, não podemos dizer que isso se deva a esse problema cognitivo”, aponta o cientista social.

“Existem pessoas com essas tendências que se ativam para se tornar mais extremistas e pessoas que também se ativam e que não as têm”, acrescenta.

Estas épocas de incerteza geram ansiedade, e os cidadãos procuram uma explicação.

Aí aparecem determinados grupos para oferecer uma explicação simples, como a de que a culpa é da imigração, que serve para reduzir essa ansiedade”, resume Sabucedo, que tem dedicado sua carreira ao estudo dos autoritarismos a partir de uma perspectiva psicossocial.

 

Além disso, para Sabucedo há outra falha no estudo:

A correlação entre essa deficiência cognitiva mostrada pelos extremistas e sua tendência ao radicalismo.

Qual é a causa e qual o efeito?

“Ainda não está claro se a metacognição limitada é a causa ou a consequência, ou ambas, da radicalização”, reconhece Fleming.

“Acreditamos que poderia predispor as pessoas a desenvolver crenças radicais, mas o contrário também é plausível”, afirma o neurocientista, e por isso vai continuar estudando o assunto nessa direção.

Fleming explica que talvez nossa capacidade de refletir sobre nossas decisões ou crenças diminua quando estivermos rodeados por outras pessoas com pontos de vista radicais.

 

Originalmente na página El País.


E você concorda?
Não é a distância que separa as pessoas. É o tanto faz
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Não é a distância que separa as pessoas. É o tanto faz

Tempo de leitura: 2 minutos
De olhos bem fechados, conte até 100 e depois tente me encontrar.

 

Em alguns segundos, estarei escondida.

Logo alguém dá sinal: Olha lá ela! Então, asas nos pés pra que te quero. Corro, corro! Bato logo o meu nome, 1, 2, 3.

Na brincadeira de pique-esconde nunca quis ser o “salve todos”, “salve o mundo”, pois me angustiava demais a ideia de ficar por último e ser esquecida para sempre ali, detrás de uma árvore qualquer.

A despeito do brincar e da vida, acredito ser divertido se esconder — manter-se a uma distância segura do outro —, mas penso ser terrível não ser encontrado.

 

As relações modernas se entrelaçam numa grande rede furada de afeto.

Perto e longe, estamos todos, ao mesmo tempo, entre o se esconder e o se achar.

Algo como um gigantesco encastelamento coletivo, esconderijo perfeito para nossas fraquezas.

Em terra de pique-esconde virtual uma ligação é prova de amor e olhos nos olhos não passam de uma sugestiva canção buarqueana.

Salve-se quem puder! Salve-se quem ainda topa mostrar a cara sem filtro e ter coragem para ser tocado além da tela touch.

Quem liga primeiro? Quem convida para sair? Quem se importa?

É tanta precaução para não se frustrar que acabamos recolhidos, solitários nos sótãos de um orgulho tolo, morrendo de medo uns dos outros.

 

Todo mundo fala de saudade, mas são poucos os que se atrevem a resolvê-la.

Por que estamos complicando tanto?

É assim: estou com saudades e não sei o que fazer com isso, a não ser te ligar, te ver.

Pois bem, não costumo alimentar saudade: mato logo ela de fome.

Acerto-lhe em cheio com minha carabina, dou-lhe veneno estricnina e cravo-lhe no peito minha peixeira de baiano.

Mato mesmo!

Saudade faz barulho demais dentro da gente.

Não suporto tanto incômodo.

Talvez por isso eu não viva saudade de quem é vivo, nem sinta tanta saudade do que passou.

Toda saudade carrega fragmentos de nostalgia.

Tenho pra mim que nostalgia demais aprisiona.

Criar um passado perfeito nunca vai nos livrar de ter que encarar o presente.

 

É claro que sabemos que não é internet nem a distância que separa as pessoas.

É a indiferença, é o tanto faz.

Há mais intenções do que convites, mais quases do que sins, mais fotos do que conversas, mais poses do que abraços, mais mágoas do que pedidos de desculpas.

As relações carecem de encontros, de escutar mais frases, como “desce, que estou aqui embaixo”, “vim te ver”, “coloca mais água no feijão”, “prepara as linguiças do tira-gosto”, “olha as flores que te trouxe”, “lembrei de você”.

 

Pode chegar.

As janelas estão abertas.

Ainda esqueço as luzes acesas.

As chaves da casa estão embaixo do tapete, como de costume.

As senhas do meu coração anotadas em papel, guardadas no bolso direito da minha calça jeans preferida.

Adoro aparecer e também ser encontrada, pois não consigo imaginar nada mais triste do que sermos esquecidos para sempre em nossos próprios esconderijos.

 

Originalmente na Revista Bula.


E você concorda?
Uma relação iniciada através do gosto partilhado pela música de Frank Sinatra e hoje descrita a partir de algumas músicas dele com sorrisos e mais sorrisos.e Frank Sinatra
Croniquetas e Papo furado

Pizzas, cigarros e sussurros com a ajuda de Frank Sinatra

Tempo de leitura: 2 minutos
Uma relação iniciada (com a desculpa?) através do gosto partilhado
Por Frank Sinatra
E hoje descrita a partir de algumas músicas dele.

 

Fly me to the Moon

… É que estou me interessando por você…

Ele ficou sem saber muito bem como lidar como esta confissão, assim como também não conseguia tirar o sorriso do rosto.

Ela percebeu que depois de “Fly me to the Moon” aconteceu tudo muito rápido.

Um chegou no momento do outro como um trem sem freio.

E de bate papo intenso com ideias intensas gerou o interesse.

Absolutamente intenso, lógico.

E Sinatra era apenas uma dentre tantas afinidades.

 

Em seguida noites foram viradas pela ansiedade e pela necessidade em saber mais um do outro.

Pressa e urgência em descobrir quem era o outro atrás do celular.

Pressa e urgência que se contrapõem ao fato de que juntos (?) as horas passavam estranhamente devagar, contrariando o senso comum de velocidade temporal.

E cada vez mais e mais ansiavam a atenção do outro e os gostos similares pela música pareciam só desculpas esfarrapadas para se falarem o tempo todo.

 

Strangers in the night

Do Whatsapp para estrada.

E da estrada foram confirmar todas as afinidades.

E das afinidades pularam com naturalidade para cama.

 

Algumas guimbas de cigarro acompanhavam o incontável número de beijos trocados.

Os lanhos no corpo e as marcas de mordidas denunciavam a tarde que tiveram.

Ambos descabelados, ambos extasiados e sem resposta para paz que sentiram um com o outro.

Efeitos da serra?

Sorrisos. Suor. Tesão. Cabelos. Desgrenhados. Beijos. Longos. Paz. Olhares. Mais sorrisos. Cheiros.

 

E com o sorriso petrificado ele ouviu:

Fica lá em casa e me espera voltar do trabalho?

E desse esconderijo só saiu na segunda-feira de manhã.

 

Alguns dias depois ela se surpreendeu:

Abre este portão que estou aqui embaixo”.

Sorrisos. Mais sorrisos. Lençóis. Pizzas. Cigarros. Cabelos. Mais desgrenhados. Beijos. Mais longos. Paz. Olhares. Mordaças e mordidas.

 

The way you look tonight

Quando tentaram explicar deram de ombros e se perguntaram:

Por que não nós?

Quando tentaram entender logo desistiram e se entregaram:

Por que não desta vez?

Quando finalmente se questionaram:

Por que não mereço tentar?

Afinal quem define o que vai dar certo ou errado se guiando apenas pelo relógio?

 

Se apaixonaram pelo que nunca tiveram e pelo que nem perceberam que almejavam.

As dúvidas eram as mesmas, assim como os medos.

E por isso brigaram.

E por isso reataram.

 

Os passados ainda estavam vivos, mas respirando por aparelhos e saindo de cena.

Dando lugar, firmemente, ao que enxergavam possível construir.

Quem sabe?

 

The best is yet to come

Com ela aprendeu a sorrir.

Com ele tinha motivos para sorrir.

Com ela se permitiu sonhar.

Com ele descobriu que sonhos são feitos para serem vividos.

Com ela aprendeu a nunca dizer nunca e a entender o significado da palavra “espaço”.

Com ele aprendeu a evitar o retrovisor nos seus momentos de tristeza.

 

Juntos entenderam que palavras podem machucar.

Juntos sentiram que as mesmas palavras podem curar.

E de peito aberto se permitiram.

E ambos têm mais certeza de que o melhor ainda está por vir quando ouvem:

Vida, Você já está chegando? Estou com saudades .

 


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José Saramago e a indiferença social
Fundindo a Cuca

José Saramago e a indiferença social

Tempo de leitura: 2 minutos
Uma das obras mais famosas e célebres de José Saramago
É Ensaio sobre a Cegueira

 

Romance este que convida a uma reflexão profunda sobre a alma humana e sobre o que aos nossos olhos parece invisível.

José Saramago foi a voz mais autoritária da literatura portuguesa.

E o refinamento de sua escrita lhe valeu o Prêmio Nobel, mas não menos importante foi seu compromisso do ponto de vista político e social.

Obras como “Ensaio sobre a cegueira” são um meio excepcional de catarse, um ponto de partida para a reflexão filosófica, um convite claro para “acordar”.

De José Saramago diz-se frequentemente que ele era um agitador de consciências.

Ele nunca desistiu de denunciar as injustiças e sempre assumiu uma posição clara contra os conflitos de sua época.

Em uma de suas palestras, ele se definiu como um escritor apaixonado, impulsionado pela necessidade de levantar cada pedra.

Mesmo sabendo que monstros reais poderiam estar escondidos embaixo.

A busca da verdade e o desejo de estimular a mente eram os ingredientes de um estilo literário único.

Suas parábolas, construídas com imaginação, ironia e compaixão, desenham uma realidade que ninguém pode permanecer indiferente.

Foi o escritor mais brilhante que Portugal nos deu.

Isso ao lado de outros nomes ilustres como o de Fernando Pessoa e Eça de Queiroz.

Sua provocativa, mágica e perturbadora obra nos convidou a analisar o presente através de seus olhos.

Os três males do homem moderno são a ausência de comunicação, a revolução tecnológica e uma vida centrada no triunfo pessoal.

 

Ensaio sobre cegueira

“Nós não somos cegos, mas nós não vemos”.

Essas palavras resumem bem a metáfora argumentativa de uma das obras mais perturbadoras de Saramago.

Em Cegueira, falamos sobre a incapacidade dos seres humanos de reconhecer o próximo.

As pessoas de repente se transformam em criaturas mesquinhas, seres cegos que precisam da orientação dos outros para entender as coisas e sobreviver.

O romance é uma profunda reflexão sobre a alma humana.

É um conto distópico, que mantém você preso.

Até pela curiosidade de descobrir por que essa estranha forma de cegueira afetou a população e continua a se espalhar como uma infecção.

As coisas precipitam quando o governo decide colocar em quarentena os doentes, sujeitando-os a formas estritas de controle.

Entre os protagonistas da história, só se pode ver: uma mulher que acompanha o marido naquela prisão, emprestando-lhe, por sua vez, seus olhos para ajudá-lo em tudo o mais.

No entanto, todo o cenário não é menos opressivo.

A higiene é escassa, os soldados não hesitam em atirar em quem chega perto demais e a degradação começa a se espalhar e lentamente, a situação assume a forma de uma verdadeira ditadura.

O caos reina e a esperança é consumida inexoravelmente.

Uma obra em que nos é mostrada a cegueira interna do ser humano. Essa incapacidade de reconhecer um ao outro e que evoca egoísmo, perda de razão, conflito e medo.

Um cenário perturbador, através do qual Saramago convida a uma reflexão moral corajosa.

Ensaio sobre a Cegueira é um livro chocante.

Se trata de um marco na literatura contemporânea que vale sempre a pena redescobrir ou descobrir pela primeira vez.

 

Adaptado de lamenteemeravigliosa.


E você leu algo dele?