Pesado ofício

Pesado ofício esse de ser quem nunca fui

 

Muitas vezes carrego este pesado ofício de começar algo sem saber quando vou terminar, de continuar mesmo depois do último ponto final e de ignorar todos os gostos alheios para não me anular

 

Pesado ofício esse de receber as ordens e imagens do cotidiano, as incertezas que carrego e as interrogações que se mantêm vivas em mim, mesmo a contragosto.
Pesado ofício esse de ser obrigado a compreender que os defeitos de todos à sua volta devem ser analisados, perdoados e compreendidos.
Já os seus devem ser colocados num outdoor ou em um comercial exibido no Superbowl.
Pesado ofício esse de assimilar que minimizar os problemas dos outros facilita na resolução dos seus próprios problemas.

Pesado ofício


Fechar os olhos para o que incomoda em si mesmo e assim levantar as pálpebras para o que incomoda aos outros.
Traduzir mensagens em lábios que se movem freneticamente.
Decifrar o titubear de quando não consigo me enfrentar no espelho e o olhar insípido que emito ao escutar uma mentira.
Depositar meu equilíbrio em uma xícara de café para enfim me fazer compreender.

 

Afinal o que é nítido para mim na verdade é turvo, é denso e inconcebível para outros.

 

Verbalizar aquilo que expresso em libras em que o sim e o não caminham de mãos dadas puxando cada qual para seu lado.
E claro! Sentir o odor pungente da derrota logo que me repito e compenso o que me falta pelo que me sobra.
E quando a balança pende mais para o lado direito logo me recolho e tapo meus ouvidos.
Enfim não tenho resposta a dar enquanto não tiver ouvido qualquer pergunta.
Pesado ofício esse que após isso tudo ainda tenha que achar forças para sorrir.

Pesado ofício esse de ser quem nunca fui.

 


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