Quanto tempo ainda temos além daquele que desperdiçamos? - FORA DO PICADEIRO
tempo

Quanto tempo ainda temos além daquele que desperdiçamos?

 

 Muito tarde ou muito cedo?
Acordando ou indo dormir?
Cabeça martelando de pensamentos vagos ou de arrependimentos?

 

Sentou ao lado de Drummond às 5 da manhã de uma segunda-feira e reparou que os óculos de bronze ainda estavam no seu lugar.
Imóvel, assim como seu parceiro de banco, desta vez não queria muita conversa pois pensava na razão de tão cedo estar ainda na rua desafiando as estatísticas de assaltos em Copacabana.
Era a maldita insônia que o acompanhava desde o nascimento do primeiro filho há 33 anos.

 

Pensava sobre o tempo e a velocidade com que ele passava.

 

Em um momento era um pai muito jovem que mal sabia trocar sua primeira fralda e no outro filosofava sobre o passar deste mesmo tempo.
Compreendeu de cara que o passar do tempo trazia solidão, já que alguns bons amigos se foram, os filhos se casaram e a esposa hoje é ex.
Sobrou a liberdade de estar na rua no horário que quiser.
Drummond parecia concordar em tudo com um imaginário balançar de cabeça que seguia o ir e vir das ondas.

Foto de Alex Ribeiro/ Agência O Dia CIDADE

Amanhecer na cidade. Foto de Alex Ribeiro/ Agência O Dia CIDADE


Entendeu que o passar do tempo não é percebido e que poucos entendem que estamos sempre no presente.
Concluiu que o passado só existe nas nossas memórias e o futuro aparece apenas na nossa imaginação.
Confirmou a percepção de que hoje o relógio corre mais rápido a ponto de não percebemos mais o que difere o passado (cada vez mais distante para trás) e o o futuro (cada vez mais distante para frente).
Colocou a “culpa” na quantidade de informações que recebemos minuto a minuto e como lógica decretou que não temos como dar conta de tudo definitivamente.
Quantidade tão absurda que creditava esta ser a mola propulsora dos conteúdos e raciocínios rasos, fragmentados e estéreis.
Nada sobrava para o ócio criativo e dessa maneira não se sentia em nada produtivo.

 

Armou uma pergunta pro seu companheiro de banco, mas logo desistiu.
Percebeu que mesmo acompanhado estava sozinho.
Notou que o futuro chegava a cada segundo e que o tempo deixava para trás o que ele tinha percebido como presente.
Ah! e que os filmes de ficção científica hoje não eram somente ficção e sim uma quase realidade.

 

Futuro Presente Passado   Futuro Presente Passado 
Presente Presente Presente Presente Presente…

 

Mas o futuro chegou sem se dar conta e consequentemente ele se percebeu velho.
E que seu tempo sempre foi precioso, mesmo que ele não o tenha tratado tão bem quanto merecesse.
Se arrependeu das tantas brigas que comprou, do pouco sexo que julgava ter feito, das viagens que queria ter feito, da monocromia da vida que levava e de tudo que achava não ser mais possível fazer.
Se lembrou do termo “tempo é dinheiro” e como vendeu o seu por tão pouco.

Quanto tempo ainda temos


Muitas vezes corria tanto com obrigações, horários e com seu pouco tempo para “fazer tudo” que se esquecia do prazer.
Prazer em curtir sua família, perceber o sabor da comida ou simplesmente observar o céu que hoje ele dividia com seu elegante confidente.
Percebeu que vivia aprisionado ao relógio que era aquele mesmo que corria contra ele.
Descobriu finalmente que o nosso tempo tem um fim, mesmo que em si ele não cesse.
E entendeu que a morte passa a ser um alívio perante a corrida sufocante que sentimos contra ele.
Se sentiu enfim reconfortado já que percebeu que a finitude é a possibilidade de recomeçar.
Ficou sem jeito e com vergonha de perguntar se Drummond tinha escrito algo sobre o tempo.
Achou melhor não falar nada, afinal não teve tempo de ler nada dele. 
 

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Fabio Pires é o cara risonho da foto. Eu sou quem assina boa parte dos textos aqui publicados e quem escolhe os assinados por outros escritores. Sou carioca, tenho um livro publicado e vários outros na cabeça, sou baixista da banda de rock Diabo Verde, ranzinza, ácido, formado em Letras, graduado em filosofia de botequim, escrevo poesia, mas não me acho poeta e desde 1976 venho tentando fazer a coisa certa, mesmo sem saber muito bem diferenciar o certo do errado.