Quanto tempo ainda temos além daquele que desperdiçamos

Quanto tempo ainda temos além daquele que desperdiçamos?

Tempo de leitura: 3 minutos
 Muito tarde ou muito cedo?
Acordando ou indo dormir?
Cabeça martelando de pensamentos vagos ou de arrependimentos?

 

Sentou ao lado de Drummond às 5 da manhã de uma segunda-feira qualquer e reparou que os seus sempre depredados óculos de bronze ainda estavam no seu lugar.

Imóvel, assim como seu parceiro de banco, desta vez não queria muita conversa pois tentava, depois de vários copos de cuba, entender a razão de ainda estar na rua desafiando as estatísticas de assaltos em Copacabana.

Sabia que era a companhia recorrente da insônia que ocupou lugar desde o nascimento do primeiro filho há 33 anos.

 

Pensava muito sobre o tempo e como não o percebeu passar.

Se lembrava vagamente da sua infância que de tão distante parece ser em outra vida.

Recordou do primeiro beijo, da primeira foda e da primeira vez que pensou estar amando. 

Em um momento era um pai muito jovem que mal sabia trocar sua primeira fralda e no outro já sentia o vazio no topo da sua agora reluzente careca.

Compreendeu de cara que o passar do tempo trazia solidão, já que alguns bons amigos se foram, os filhos se casaram e a esposa hoje é ex.

Sobrou para ele a liberdade de estar na rua no horário que quisesse.

Sem dar nenhuma satisfação.

Drummond parecia concordar em tudo com um imaginário balançar de cabeça que seguia o ir e vir das ondas.


 

Foto de Alex Ribeiro/ Agência O Dia CIDADE

Amanhecer na cidade. Foto de Alex Ribeiro/ Agência O Dia CIDADE


Mesmo inebriado conseguiu perceber que poucos entendem que estamos sempre no presente e que a cada segundo o presente se transforma em passado.

E daí concluiu que o passado só existe nas nossas memórias e o futuro aparece na nossa imaginação e ansiedade.

Confirmou a percepção de que hoje o relógio corre mais rápido a ponto de não percebemos mais o que difere o passado (cada vez mais distante para trás) e o futuro (cada vez mais distante para frente).

Colocou a “culpa” na quantidade de informações que recebemos minuto a minuto e no ritmo acelerado que levamos nossas atribuições.

Não sobrava tempo algum para o ócio criativo e dessa maneira não se sentia em nada produtivo. 

 

Armou uma pergunta pro seu companheiro de banco, mas logo desistiu…

Percebeu que mesmo acompanhado estava sozinho exatamente como se sentia em todo lugar.

Notou que o futuro chegava a cada segundo e que o tempo deixava para trás o que ele tinha percebido como presente.

Ah! e que os filmes de ficção científica hoje não eram somente ficção e sim uma quase realidade.

 

Futuro Presente PassadoFuturo Presente Passado

Presente Presente Presente Presente Presente…

 

Mas o futuro chegou bater na porta e consequentemente ele se percebeu envelhecido.

E também que seu tempo sempre foi precioso, mesmo que ele não o tenha tratado tão bem quanto merecesse.

Se arrependeu das tantas brigas que comprou, do pouco sexo que julgava ter feito, das viagens que queria ter feito e da monocromia da vida que levava

E também de tudo que achava não ser mais possível fazer.

Estava e se sentia “velho”.

Ponto!

Se lembrou do termo “tempo é dinheiro” e como vendeu o seu por tão pouco.


Quanto tempo ainda temos


Muitas vezes corria tanto com obrigações, horários e com seu pouco tempo para “fazer tudo” que se esquecia do prazer.

Prazer em curtir sua família, prazer em perceber o sabor da comida.

Ou em simplesmente observar o céu que hoje ele dividia com seu elegante confidente.

Quem sabe perceber a brisa leve que trazia a maresia para se embaralhar como efeito do álcool.

Percebeu que vivia aprisionado ao relógio que era aquele mesmo que corria contra ele e consequentemente descobriu que o nosso tempo tem um fim, mesmo que em si ele não cesse.

Se sentiu enfim reconfortado já que percebeu que a finitude é a possibilidade de recomeçar.

Ficou sem jeito e com vergonha de perguntar se Drummond tinha escrito algo sobre o tempo.

Achou melhor não falar nada, afinal não teve tempo de ler nada dele. 

 

 


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Fabio Pires é o cara risonho da foto. Eu sou quem assina boa parte dos textos aqui publicados e quem escolhe os assinados por outros escritores. Sou carioca, tenho um livro publicado e vários outros na cabeça, sou baixista da banda de rock Diabo Verde, ranzinza, ácido, formado em Letras, graduado em filosofia de botequim, escrevo poesia, mas não me acho poeta e desde 1976 venho tentando fazer a coisa certa, mesmo sem saber muito bem diferenciar o certo do errado.