Receita de ano novo por Carlos Drummond de Andrade

Receita de ano novo por Carlos Drummond de Andrade

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O poeta Carlos Drummond de Andrade dava atenção aos costumes de Ano Novo e uma prova disso está nos pequenos – e por muito tempo inéditos – poemas de fim de ano que, por anos, enviou a seu amigo epistolar Lázaro Barreto, escritor amador que ele nunca chegou a encontrar pessoalmente.

 

Mas não se resumem só a isso os cuidados poéticos de Drummond no encerramento do ano.

No livro Discurso de primavera e algumas sombras, que o poeta lançou em 1979, apareceu uma  Receita de Ano Novo que se tornou famosa.

São seus versos de Carlos Drummond de Andrade que vamos ouvir a seguir…

 

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)


Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.


Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

 

Carlos Drummond de Andrade.

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