Sem cinto de segurança
Croniquetas e Papo furado

Sem cinto de segurança

Tempo de leitura: 2 minutos
Dirigir funciona comigo como uma espécie de terapia,
Desde que não esteja engarrafado…

 

Gira a chave do seu carro num domingo de sol em busca de algo que nem ele mesmo sabe o que é.

Engrena a primeira e parte sem destino seguindo apenas o caminho que sua cabeça levar.

Sente a brisa passeando pelos seus cabelos, não passa dos 80 não por cumprir rigidamente as regras de trânsito.

Mas para perceber as nuances do seu pensamento e esvaziar o pouco de problemas que ainda consegue manter no seu dia a dia.

Consegue descansar a perna esquerda.

E como consequência a embreagem surrada do seu antigo bólido que segue numa velocidade constante que ele sempre tentou programar e transportar para sua vida.

Vê outros tantos carros com pressa, mesmo sendo uma mera manhã de domingo em que ele só quer ver e sentir justamente o astro lhe cobrir de vitamina D.

Arregaça a longa bermuda como um motorista de ônibus faz com as calças, pensa em fotos em ângulos não muito convencionais e percebe que ele mesmo é pouco convencional ou mesmo constante.

Enquanto isso tenta se lembrar da última vez que mudou a quinta marcha.

Percebe os urubus no lixão buscando seu almoço.

E logo em seguida avistou outros na fila de um pomposo restaurante aguardando também pelo seu momento.

Desiste de contabilizar por quantos buracos passou e nem fez força em desviar.

A música que ouve se encaixa perfeitamente nesse seu momento em que se acostuma a ficar sozinho e a curtir a sua presença.

Sente falta, mas compensa berrando o refrão da música que toca na rádio mentalmente com a cabeça para fora do carro.

Permite-se.

 

 

O brilho nos olhos ainda estava no espelho retrovisor acompanhado do silêncio que carregava nos lábios.

Buscava as poucas respostas que conseguia para tantas perguntas e se sentia neste momento seu pior inimigo por não lhe dar a paz constante que dizia buscar.

Curva acentuada beirando uma praça em que várias crianças cansavam seus pais e ainda assim se sentia absurdamente confortável por andar em círculos e não saber para onde ia.

Apenas ia.

E seguia feliz por deixar o futuro em seu devido lugar.

No banco do carona. Sem cinto de segurança.

 


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Fabio Pires é o cara risonho da foto. Eu sou quem assina boa parte dos textos aqui publicados e quem escolhe os assinados por outros escritores. Sou carioca, tenho um livro publicado e vários outros na cabeça, sou baixista de rock, ranzinza, ácido, formado em Letras, graduado em filosofia de botequim, escrevo poesia, mas não me acho poeta e desde 1976 venho tentando fazer a coisa certa, mesmo sem saber muito bem diferenciar o certo do errado.

Fabio Pires é o cara risonho da foto. Eu sou quem assina boa parte dos textos aqui publicados e quem escolhe os assinados por outros escritores. Sou carioca, tenho um livro publicado e vários outros na cabeça, sou baixista de rock, ranzinza, ácido, formado em Letras, graduado em filosofia de botequim, escrevo poesia, mas não me acho poeta e desde 1976 venho tentando fazer a coisa certa, mesmo sem saber muito bem diferenciar o certo do errado.

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