Um dia qualquer de trabalho

Um dia qualquer de trabalho

Tempo de leitura: 2 minutos
Em um simples dia de trabalho…

 

Cara, que vontade absurda de chorar!

De molhar estas folhas com lágrimas minhas.

E não saberia neste momento definir a razão.

Apenas sinto.

Na calma e tranquilidade do meu ambiente de trabalho me afogo em memórias e pensamentos mais longínquos que os de habitual.

E assim vou longe.

O choro ainda não saiu, mas está aqui em algum lugar.

Travado. Fincado. Mudo. Exatamente igual ao mal-estar que precede ao vômito. Sei que está aqui em algum lugar e que vai sair, só não sei quando. Nem mesmo a razão.

16h16min.

Falta muito tempo ainda? Muito tempo para que mesmo?

Também tenho meus momentos de fraqueza, de recolhimento e de introspecção.

Penso em tudo que me rodeia.

Penso, penso e penso e talvez até por demais.

Sinto finalmente uma brisa do ar condicionado falho acariciando meus cabelos e apaziguando o calor no meu crânio em silenciosa ebulição.

24 graus, mas parece os 45 de Bangu.

Penso também em mais um período que não poderei viajar, bater asas, sentir ares diferentes, perceber hábitos diferentes, buscar meu nirvana.

Quero muito viajar. De preferência sozinho e para longe.

Continuo a agir totalmente em desacordo com o que sempre acreditei.  “Quem pensa muito age pouco”, dizia eu no alto da minha incrustada arrogância.

Hoje, quem diria, eu penso.

Maldita vontade de chorar que ainda está por aqui e ainda insiste em aparecer por aqui.

No silêncio quase sepulcro dos entre voos que me encontro, as memórias me vêm à tona e em alguns momentos tomam lugar da razão e me tomam de assalto o que sempre tive de mais precioso.

Maldito relógio que não marca logo 23! Cansando a visão já turva como num deserto onde vejo, mas não enxergo.

Saudades do que não mais terei, talvez por isso só agora as primeiras lágrimas teimem em escorrer sem ordem ou consentimento meu.

O que elas querem dizer eu não tenho ideia, até suspeito, mas não posso confirmar.

O que será desta vez?

Essa gangorra de emoções e sentimentos me consome por demais.

Parece que minha bússola marca só para o sul.

Ouço finalmente passos apressados de quem desembarca com mais de quatro horas de atraso.

Semblantes fechados, cansados, típicos de um voo ruim, demorado e cheio de contratempos.

O tempo lá fora também estava ruim.

Chovia quando cheguei.

Aqui dentro também.

Um inocente “boa tarde” para alguns pode parecer deboche.

Então me calo.

 

Alguém da televisão desembarca incógnito inclusive para mim que não o reconheço de imediato. Um senhorzinho estiloso com andar engraçado de quem tem as pernas arcadas.

– Belo chapéu, senhor. Só que não.

Uma menina loira de seios fartos passa apressadamente por mim tentando sem sucesso segurar o choro. Em vão.

– Mas já está tão perto, tomara que ele esteja lá fora te esperando e não de onde você veio. Ou eles ou talvez ela.

 

Um judeu ortodoxo, uma família em que os dois filhos pequenos estão à beira de deixar a mãe louca, o deportado desolado e acompanhado pelo Policial Federal, os gringos com cara de gringo, a moça que parece estar de mudança devido ao número de malas que carrega e pelo semblante tão pesado quanto ao da bagagem, o alcoolizado que aos solavancos carrega sua malinha, duas freiras risonhas (as únicas a rir), o cabeludo com cara de doidão e por último uma velhinha simpática que logo me pergunta:

 

– Quer um lenço, meu filho?

 

Foto por Pixabay.

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Fabio Pires é o cara risonho da foto. Eu sou quem assina boa parte dos textos aqui publicados e quem escolhe os assinados por outros escritores. Sou carioca, tenho um livro publicado e vários outros na cabeça, sou baixista da banda de rock Diabo Verde, ranzinza, ácido, formado em Letras, graduado em filosofia de botequim, escrevo poesia, mas não me acho poeta e desde 1976 venho tentando fazer a coisa certa, mesmo sem saber muito bem diferenciar o certo do errado.